Uma certa Diplomacia - Algumas décadas e pouco nas Necessidades



Palácio das Necessidades

Água forte do sec. XVIII – colecção do autor
[imagem pouco clara, quer pela idade, quer pela dificuldade em fotocopiar, com
a moldura em pau santo da época]


de Guilherme Manuel de Souza Girão

4o. Visconde de São Jorge


Os homens são assombrados pela imensidão da eternidade. Por isso perguntamo-nos: irão os nossos actos ressoar ao longo dos séculos? Ouvirão estranhos os nossos nomes, muito depois de termos desaparecido e perguntarão quem fomos, de quem nascemos e onde nos integrámos, quão corajosos lutámos, quão intensamente amámos ou odiámos?


Foi há muitos anos que comecei a pensar num estudo profundo e alargado sobre a minha família, muito em especial o ramo Girão, Souza, Mello e Eça. Mas foi nas noites, sozinho, na minha casa de Rabat [34 bis, Rue de Dijon] que mais intensamente me dediquei a tal obra.


Chefe de Gabinete do Secretário-Geral do M.N.E, e início no Protocolo de Estado


Porém quando entrei para o M.N.E. fui colocado como Chefe de Gabinete do Secretário-Geral, Embaixador José Luís Archer de Figueiredo.

A posição que ocupava deu-me oportunidade para, dentro do Ministério, ter um contacto pessoal e directo com quase todos os Serviços – Cifra, Pessoal, Administrativo, Pacto do Atântico, Económicas, Expediente – bem como com os principais chefes superiores do Ministério: Director-Geral dos Negócios Políticos, Embaixador José Manuel Fragoso, e seu Adjunto interino, Ministro João Hall Temido; Director-Geral dos Negócios Económicos, Embaixador Albano Nogueira; Director-Geral Administrativo, Embaixador Humberto Morgado, bem como com o próprio Ministro dos Negócios Estrangeiros, Embaixador Franco Nogueira. Todos simpáticos, amáveis para com um principiante, salvo o Ministro Temido, pedante e taciturno; pedante, dizia-se, pelo dinheiro que usufruía pela parte da mulher; taciturno [andava pelos corredores do Palácio quase sem levantar a cabeça] pela frustração de não ter filhos que, em rigor, nunca teve.

Em breve, também, fui chamado para fazer serviço de Protocolo de Estado. Assim aconteceu no meu ano de entrada no Ministério como depois mais tarde, nos anos – 1965, 66, 67, 82 quando colocado na Secretaria de Estado. Pelo tal tive ocasião de trabalhar tendo como Chefes o Embaixador Alfredo Lencastre da Veiga, o Embaixador António Pinto Mesquita e ainda o Embaixador “da velha guarda” Emílio Patrício, pai do último Ministro dos Negócios Estrangeiros da II República, Rui Patrício, e de António Patrício, Embaixador de carreira, que creio terminou como Embaixador em Moscovo.


Apresentação de Credenciais do Embaixador
de França, Barão Edmund de Beauverger,
Palácio de Belém, 16-05-1962
Membro da Casa Militar, Tomaz Andersen
Cunha Rodrigues, Nuno Barroso, o autor e
António Roxo Bandeira

Grã Cruz da Ordem de Cristo entregue
pelo Secretario Geral ao Embaixador
da Dinamarca Hugh Hergel
Palácio das Necessidades, 29-10-1962
Embaixador Archer, o autor,
Dona Vera Franco Nogueira e
Embaixador Hugh Hergel e Senhora


Credenciais do Embaixador da R.A.U. [Egipto]
Palácio da Necessidades, 14-11-1962
[honras prestadas pelo esquadrão de
Cavalaria da G.N.R. antes da partida
para o Palácio de Belém
Embaixador da R.A.U., Chefe do Protocolo.
Embaixador A. Lencastre da Veiga,
Carlos Wemans, Tomaz Andersen, o autor


Credenciais do Embaixador do Brasil,
Carlos de Ouro Preto
Palácio de Belém, 17-06-1966
Embaixador Emílio Patrício, Chefe do Protocolo
Embaixador Ouro Preto, Lemos Godinho
Nunes Barata, o autor, Rui Preto e S. Santiago


Cumprimentos após as Credenciais do Embaixador britânico
Embaixada do Reino Unido, 07-10-1966
Embaixador de S.M. Britânica, Embaixador Emílio Patrício, Chefe do Protocolo
Quartin Bastos, Adido de Defesa Britânico e o autor



Quando Chefe de Gabinete do Secretário –Geral tive ainda ocasião de conhecer “figuras míticas” da Carreira. Aconteceu que o Embaixador Archer de Figueiredo estava interino como Secretário-Geral. A interinidade, por lei, não poderia ultrapassar 1 ano e terminava em 9 de Julho de 1962. Se não fosse confirmado até essa data [e a decisão era, como se esperava, do Presidente do Conselho, de aí o suspense ] haveria que nomear outro Secretário-Geral. Lembro-me que foi só na véspera, em 8 de Julho, que o Ministro informou o Embaixador Archer de Figueiredo que iria ser confirmado e, assim, passariam por aqueles enormes Gabinete e sala de espera figuras da velha Carreira como Teotónio Pereira, Farrajota Rocheta, Bívar Brandeiro, Leite de Faria, Fontes Pereira de Mello Fonseca, Alberto Martins e tantos e tantos outros que só conhecia de nome e acho não voltei a vê-los. Vinham, claro, apresentar cumprimentos ao Chefe da Carreira que acabou por ficar no lugar até ao limite de idade – 70 anos – isto é mais 10 anos. Verdade seja que o Embaixador Archer de Figueiredo era uma figura de consenso com uma carreira, se não brilhante, muito bem estruturada [chegou a ser Governador da Zona Internacional de Tanger, antes da independência de Marrocos] e assim oferecia muito boas condições para um lugar difícil e de prestígio.


Tive oportunidade de contactar algumas vezes com o Presidente do Conselho. Nesse tempo 1962/1963, havia apenas o Ministro dos Negócios Estrangeiros e o Secretário-Geral; quando aquele estava ausente ou impedido o Ministério era gerido pelo Presidente do Conselho e o Secretário-Geral. Assim, e sobretudo em Setembro de 1962, quando o Ministro Franco Nogueira passou quase todo o mês em Nova Yorque, por ocasião da A.G. das Nações Unidas fui pessoalmente algumas vezes ao forte de St. António, no Estoril, levar e trazer em caixa de que não tinha a chave[era fechada por quem a mandava e aberta e fechada de novo por quem a recebia] telegramas ou ofícios confidenciais ou mais importantes.

O Presidente do Conselho sabia bem quem eu era, de onde vinha, o que fizera na Universidade, que fora também a sua, conhecia a minha família. Deu-me a entender isso mesmo, embora nunca tivesse conversas mais detalhadas sobre o assunto, salvo logo no início, quando eu ainda estava de luto, se referiu á morte prematura, por ser ainda novo, e súbita de meu Pai, ocorrida alguns meses antes. Foi tudo, ainda que anos depois, em conversa com o Prof. Bissaya Barreto, com quem almocei algumas vezes ao sábado no Hotel Metrópole quando ele vinha a Lisboa nos fins de semana [o Prof. Bissaya Barreto foi sempre bom amigo de minha família; salvou-me a vida quando, com 9 anos de idade, fui por ele operado em Coimbra a uma apendicite aguda com principio de peritonite – assim eram aqueles tempos !] me tivesse referido que o Presidente do Conselho lhe perguntara por mim, dado que, tendo sido colocado na Embaixada em Rabat, só uma vez viera a Lisboa e tivera de novo contacto com ele. Franco Nogueira refere o meu Pai no 1º. volume da sua biografia de Salazar, nos tempos da casa dos Perestellos Botelheiro, na Alta de Coimbra.


Não posso deixar de mencionar aqui uma pequena “história”, mais anedota que outra coisa, relacionada com a primeira vez que fui ao forte de St António. O Secretário-Geral, Embaixador Archer de Figueiredo, disse-me que eu deveria ir urgentemente levar uns documentos ao Presidente do Conselho. Lembrei-me de telefonar á minha então namorada, e mais tarde mulher, Maria Manuela, que tinha um carro muito próprio para uma senhora, um Renault Dauphine [que se tornou muito conhecido por ser então o carro da Princesa Grace de Mónaco], de cor azul turquesa, perfeito, pois, para a Maria Manuela, pedindo-lhe que me emprestasse o carro de seguida para eu ir ao Estoril. Nesse tempo o tráfego na marginal era relativamente diminuto e por isso nem o carro, nem eu correriam grandes riscos…

Cheguei ao forte, arrumei o carro, á entrada estava apenas um homem á paisana e, em seguida, a porta foi aberta por uma criada fardada, como na época. Ao chegar junto ao Presidente do Conselho este olhou-me com uma certa surpresa e disse de seguida : “já cá está; veio muito depressa” ao que respondi muito naturalmente que tinha vindo de carro, sem grande trânsito. Então, e nunca mais me esquecerei, Salazar disse apenas, com um ar algo sardónico :” ah sim? Tão novo e já com carro”. Com certeza nada disse, mas se nunca esqueci o que se passou lembrei-me bem desses tempos quando dei ao meu filho, ainda na Universidade em Cambridge, um Mini, e á minha filha, igualmente na Universidade em Exeter, também um carro, um Renault 5… Outros tempos, mas os actuais com consequências que são bem conhecidas económica e financeiramente a nível nacional e internacional…

Igualmente e ainda sobre o tipo de personalidade do Presidente do Conselho, e como creio que certas pequenas histórias, pequenos episódio, por vezes algo picarescos, servem para, em parte, definir a personalidade de cada um, vou acrescentar aqui, embora passados em épocas diferentes, mais dois curiosos apontamentos sobre Salazar.

Assim o primeiro refere-se pura e simplesmente ao Hotel Estoril Sol [antigo], claro já demolido. Esse hotel estava integrado na concessão que fora feita a Teodoro dos Santos, que havia começado a sua vida como vendedor na Baixa de malas de viagem, da exploração da zona de jogo do Estoril. Deveria construir um casino novo e um hotel de grande envergadura para alto turismo. O casino antigo ainda o conheci bem. Meu tio Mário, irmão de minha mãe, arquitecto e pintor, era grande amigo do Dr. Manuel Teles, genro de Teodoro dos Santos, e muitas vezes fez decorações sempre diferentes e para ocasiões especiais no antigo casino. Era lá que se encontravam amigos dele, inclusive o Conde de Barcelona e o filho Juan Carlos, da minha idade, pois o meu tio era casado com uma espanhola da alta sociedade madrilena, cuja família fugira para Portugal com a guerra civil espanhanola.

O novo casino foi feito substituindo o antigo, género “art nouveau”, como outros na Europa, E foi feito também o hotel. Ora na altura causou uma enorme polémica. Considerava-se um enorme bloco de cimento, diziam sem estética nem beleza, que destoava e muito na paisagem do Estoril-Cascais. Enfim aqueles disparates que são tão comuns em Portugal.

Salazar passava por ali sempre que ia ao forte de Santo António onde passava os meses de verão e tinha que se ter familiarizado com a visão do hotel. Ora um dia num dos banquetes da Ajuda para um Chefe de Estado estrangeiro estava eu e uma vez mais o meu Chefe, o Embaixador Lencastre da Veiga, Chefe do Protocolo do Estado, quando se aproximou Salazar com já não me recorda quem. Na conversa variada veio o tema do Hotel Estoril Sol. E lembro-me que Salazar perguntou, sempre com o seu tom irónico, que achavam do Hotel. Como ninguém se aventurava a responder, dada, claro, a polémica conhecida, então o Presidente do Conselho atalhou e disse “ Já compreendi, e ainda dizem que mando neste País !!!”

Na verdade foi uma novidade para a época, mas depois tornou-se num símbolo e acabou por estar integrado e fazer parte da paisagem da linha.

Outro episódio, este passado anos depois e que me foi contado por terceira pessoa, é igualmente, segundo creio, de um sabor extraordinário pelo seu significado que acaba por ser profundo em vários aspectos, até mesmo políticos, se assim se quiser.

Em 1970 fui convidado a viajar a Portugal com a família, minha mulher, meus filhos e a criada que nos acompanhava, pela Companhia Colonial de Navegação, viagem a ser feita num dos nossos melhores navios – o Infante Dom Henrique [ o outro, Príncipe Perfeito, fazia escala em Durban, e pertencia á Companhia Nacional de Navegação]. A viagem seria feita a partir de Capetown e demoraria cerca de 15 dias, com paragem no Lobito, Luanda [dois dias], Canárias e Madeira.

Eu teria que aproveitar o meu mês de férias anual, mas teria primeiro que pedir autorização ao Ministério dos Negócios Estrangeiros. Ao contrário do que hoje muitas vezes se pensa naqueles tempos estes assuntos eram tratados com rigor e transparência. Nada poderia dar a crer que era como um favor em contrapartida de algum acto menos próprio. E assim, tinha que usar o direito ás minhas férias e submeter-me primeiro á autorização do Ministério. Esta felizmente veio e como as viagens de Durban a Lisboa e regresso eram caras, seria uma oportunidade excelente para ao fim de quase 3 anos ir rever Lisboa, a família e os amigos.

A viagem foi uma verdadeira maravilha. Creio que nisso fomos os grandes afortunados pois hoje já dificilmente se fará algo semelhante. Mas o que quero aqui contar e se prende uma vez mais com Salazar [ acho que a História se faz também de pequenas histórias ] é o seguinte : em Luanda entraram o Eng. Brougnont e a mulher entre outras pessoas. Mas o casal ficou em 1ª classe e rapidamente fizemos conversa e passámos algumas horas juntos. Ele era belga, grande especialista em prospecção de petróleo e já estava em Angola nesse campo há uns anos. A mulher, portuguesa, muito mais nova, era o que nós chamávamos então de “pirosa” ou pretenciosa. Muito bonita e pouco discreta. Mas adiante! O Eng. Brougnont vinha algumas vezes á metrópole para tratar dos assuntos do petróleo. Então contou-me que um dia, creio que nos meados dos anos sessenta, veio de propósito a Lisboa justamente para se avistar com Salazar. Disse-me que vinha radiante, eufórico mesmo e esperava uma recepção do mesmo teor. Então foi avistar-se com Salazar e de tão contente que ia não se conteve e foi logo directo ao assunto “ Descobrimos petróleo, Sr. Presidente. É certo desta vez – temos petróleo em Angola e em quantidade de grande exploração”. Foi então que, segundo o Eng. Brougnont, Salazar que o tinha ouvido impávido e mostrando o que o Eng. considerou uma grande serenidade, disse-lhe com aquela sua voz muito pausada – “ Só nos faltava mais esta”. Creio que não são necessários quaisquer comentários. Isto era Salazar!!!


Naqueles encontros e noutros, em serviço, houve duas coisas que sempre me impressionaram –a sua facilidade, rapidez e precisão em se exprimir; a preocupação pelo detalhe, o pormenor.
Era fascinante ver o Presidente do Conselho escrever de jacto, numa folha de papel branco, sem emendas nem rasuras, um telegrama ou a minuta de um ofício. De tal modo que consegui um dia guardar um texto manuscrito desses, exactamente um telegrama para o Embaixador no Vaticano, António Leite de Faria, sobre as Comissões para as Missões no quadro do Concílio Vaticano II. Conservo tal texto em boas condições e ao vê-lo recordo-me sempre como aquele e outros textos eram escritos á minha frente para irem para a caixa e depois para os serviços do M.N.E., Cifra ou Secretaria-Geral.

Quanto á preocupação pelo detalhe, dado que fazia por vezes serviço de Protocolo, num dos banquetes oficiais no Palácio da Ajuda, para cerca de 60 pessoas, estava eu com o meu chefe, o grande diplomata Embaixador Alfredo Lencastre da Veiga, quando, após o banquete, se aproximou o Presidente do Conselho. Com um sorriso algo irónico dirigiu-se ao Embaixador felicitando-o pelo banquete, que tinha decorrido muito bem, mas logo acrescentou – “ havia apenas um pequeno pormenor. A toalha, muito bonita por sinal, estava ao avesso”. Tanto o Embaixador Lencastre da Veiga como eu ficámos mudos, mas recordámos o ocorrido, anos e anos depois, quando em 1976, chamado subitamente para desempenhar as funções de Chefe do Protocolo a.i. recorri ao meu antigo chefe pedindo-lhe que me ajudasse nesse momento que para mim era difícil e algo surpreendente. Fi-lo, recordo-me bem, em almoços que tivemos no Círculo Eça de Queiroz. Eu era então já membro, uma vez que após o 25 de Abril vieram pedir-me que entrasse no Círculo Mais uma grande surpresa pois recordava-me bem de quando o Secretário-Geral do M.N.E., já então “full” Embaixador José Luís Archer de Figueiredo, Chefe da Carreira Diplomática [o que não era pouco] fora finalmente admitido como um dos “202” membros do Círculo Eça de Queiroz, nos anos 60, depois de ter esperado não sei quanto, por tal distinção. Mas os tempos eram definitivamente outros, no fundo, cheios de surpresas…
Sendo, efectivamente, um tempo de surpresas não resisto a referir aqui duas das várias ocorrências durante a minha chefia do Protocolo do Estado. Qualquer delas com repercussões no futuro.

Havia então uma associação de taxistas – Autocoope – com forte influência do Partido Comunista e da Central Sindical. Numa tarde fui informado, com certa ansiedade, pelo responsável pelo aeroporto da Portela de que tinam chegado para a Embaixada da República Democrática da Alemanha [leia-se Alemanha comunista] vários grandes contentores que estavam a ser processados para entrar em território nacional através da imunidade diplomática, então e ainda agora existente. Logo de seguida foram-me apresentados os documentos para assinar os quais se destinavam a desalfandegar os referidos contentores.
Dirigi-me de imediato ao aeroporto, acompanhado por 2 dos meus funcionários. Nesse tempo a desordem e o caos eram totais. Havia automóveis e carrinhas das Embaixadas que entravam directamente nas pistas de aterragem e iam até aos aviões. Saíam, depois, livremente.
A declaração do conteúdo dos contentores não era clara. Assim, e usando dos mesmos poderes que as normas de imunidade diplomática conferem aos representantes do Estado receptor, dei ordem para abrir os mesmos. Dentro vinha uma numerosa e muito sofisticada, para o tempo, aparelhagem de emissão e recepção por rádio, que, distribuída pelos táxis da Autocoope, permitia um contacto rápido e generalizado via rádio e um quase controle total de uma situação subversiva no país. É evidente que mandei suspender, primeiro, a entrada do material e, logo a seguir, o seu reenvio para a Alemanha de Leste. De tudo dei conhecimento ao então Secretário-Geral do M.N.E. , Embaixador Tomaz de Mello Breyner Andersen, meu amigo de muitos anos atrás e que me havia chamado, inesperadamente, para desempenhar funções que eu e ele conheciamos bem, mas ultrapassavam , e em muito, a minha posição na carreira.

Anos mais tarde, ao chegar à Embaixada de Portugal em Berlim Oriental e quando fiz a minha primeira visita de cortesia ao M.N.E. local, fui muito amavelmente, mas com um toque irónico, recebido em alemão [eu havia estado antes como Cônsul-Geral em Stuttgart] com a referência de ser bem conhecido – sem indicação clara da ocasião e motivo – pelos serviços diplomáticos centrais daquele país. Pudera!!! Vim mais tarde a saber que alguns altos diplomatas da DDR, que comigo trataram, andavam, em Berlim, a conduzir táxis. Assim se mudam os tempos…

O segundo caso, que deu origem á minha saída de Chefe do Protocolo de uma forma tão súbita quanto fora a minha entrada, relaciona-se com uma “intriga” que me fora criada pelo Embaixador da República Federal da Alemanha em Lisboa, Dr. Caspar, [pessoa muito influente nos meios políticos portugueses nos anos 76 e 77, já que o Partido Socialista português, como vim a ter a confirmação anos mais tarde na Alemanha, era financiado pelo Partido S.P.D. dos Senhores Brant e Schmidt ] junto do Primeiro Ministro, Mário Soares, segundo a qual eu era “saudosista”[sic]. Daquele passou para o meu Ministro, o aliás muito pouco competente, complexado e conflituoso Medeiros Ferreira – que pouco depois, tendo-se ele próprio incompatibilizado com Mário Soares, foi para sempre relegado para segundo plano da família socialista – o qual me dispensou em poucas horas, ficando naquela situação impar do M.N.E. de “chamado em serviço” sem ter nada que fazer.

Como disse eram tempos de grandes surpresas e o “meu saudosismo” limitara-se a referir, ingenuamente reconheço, em conversa banal com o Embaixador Dr. Caspar, quanto era difícil desempenhar o lugar de Chefe do Protocolo com tanta gente a querer saber tudo, ter tudo, atropelando-se uns aos outros, sem a mínima noção das implicações dos cargos que ocupavam –a própria mulher do Presidente da República, Ramalho Eanes, recém investido, preparava-se para ir aos cocktails das Embaixadas, tendo que ser avisada que tal não poderia nem deveria acontecer. Assim, “saudosismo foi equiparado a “fascismo” e logo…o limbo.

Não vou deixar passar esta oportunidade sem procurar referir-me, mais detalhadamente, ao que poderia ser tido por “saudosismo”.
Sempre me impressionou e intrigou a forma como Salazar tratou um assunto tão importante para Portugal, e não só, como foi o caso do Ultramar. Temos que atender aos factos e só aos factos e eles para mim são –1º. a existência de um império colonial, sem sofismas, totalmente desfasado das realidades internacionais e, mais que outra coisa, pouco ou nada sentido por quem estava na metrópole. As massas, em Portugal, pouco entusiasmo tinham pelos territórios do ultramar [quem não se lembra de as populações rurais, e não só, quando com elas contactávamos nas férias passadas na quinta, antes mesmo dos acontecimentos em 1961, dizerem – ir para África é ir para o degredo !!!]; as novas gerações, como a minha, que não hesitavam em pensar e dizer que o regime era a criação de uma personalidade e ao desaparecimento da mesma não sobreviria por muito mais tempo, estavam muito mais interessadas pelas perspectivas de uma união europeia, falávamos com grande interesse, nos finais dos anos cinquenta, da Comunidade do Carvão e do Aço e do Plano Schuman, com a aproximação da França e da Alemanha e a possibilidade de num futuro se avançar para a Unidade Europeia – não era preciso ser-se “subversivo”, anti-facista ou sequer “democrata” para se entusiasmar mais com o que se passava em Londres, Paris ou Nova Yorque do que o que acontecia em África ou na Ásia…Salvo, claro, quem para lá ia e seus familiares;2º.- se em alguma matéria Salazar se distinguiu de uma maneira que direi sempre brilhante foi na política externa. Deve ter sido, pelo menos na minha opinião, um dos maiores estadistas do sec XX em política externa, ainda que, como se dizia como sátira, nunca tivesse passado a fronteira, se não para o lado de lá, em Espanha, e bem perto de Portugal…Basta ler, como eu fiz, os muitos e muitos volumes dos “Dez Anos de Politica Externa”, que cobrem os anos de 36 a 45, isto é a Guerra Civil de Espanha e a II Guerra Mundial. São transcrições de milhares de ofícios, telegramas, minutas de conversas diplomáticas entre altas personalidades, instruções enviadas para as Embaixadas e Consulados e relatórios das mesmas para o M.N.E. Nada tendencioso pois não se fazem nem comentários, nem apreciações, apenas os textos tal e qual foram enviados e foram recebidos. A figura principal em toda esta obra é, indiscutivelmente, Salazar como Ministro dos Negócios Estrangeiros. Mas nunca esquecer pessoas como Armindo Monteiro, nosso Embaixador em Londres, Teotónio Pereira, Nosolini, Leite de Faria, e, ainda, destacadamente, Teixeira de Sampaio, Secretário-Geral do M.N.E. e muitos outros. [Uma referência muito especial a Armindo Monteiro. Não sendo diplomata de carreira, pois era Professor Catedrático de Direito de Lisboa, mostrou-se, quando Embaixador em Londres uma personalidade de grande relevo na alta diplomacia. São absolutamente notáveis, eu diria mesmo, uma verdadeira obra prima, os telegramas trocados entre o Embaixador em Londres e o Presidente do Conselho e Ministro dos Negócios Estrangeiros, aquele, e bem, manifestamente anglófilo, Salazar insistindo numa politica de “neutralidade beligerante”, que no final lhe veio a dar razão. E sobretudo os dois últimos telegramas, o de Armindo Monteiro, pondo o cargo á disposição do Governo Português, pelas suas convicções políticas atrás referidas, e o do Ministro dos Negócios Estrangeiros, numa subtileza de grande mestre, não podendo aceitar tal resignação pelo que de, justamente, contraditório, pelo momento em que o pedido era feito, tal facto poderia trazer para a expressão das convicções sinceras do Embaixador e o reflexo adverso que tal traria para a posição internacional de Portugal. Quem, como eu e toda a minha família, esta durante a guerra, eu mais tarde como estudante e profissional, foi sempre por tradição e convicção “anglófilo” – no meu caso haja em vista a prova de ter mandado os meus filhos com 9 e 11 anos para colégios internos em Inglaterra, o Manuel Bernardo mesmo para Harrow School, HeadMaster House, e o mesmo quarto, durante 5 anos, que tinha sido dezenas de anos antes o de Churchill – não pode ser de todo indiferente, bem pelo contrário, a esta passagem magnífica e documentada, mas infelizmente tão pouco conhecida, de um importante período da nossa história, sobretudo nas nossas relações internacionais. E uma palavra de grande saudosismo pelos dois filhos de Armindo Monteiro, de quem fui grande amigo- a filha, Manita, casada com o meu colega Bartolomeu Perestrelo e ambos tão cedo desaparecidos; o filho, conhecido escritor e dramaturgo, Staut Monteiro, com quem mantive muito boas relações, em Cascais e no Estoril ].

Trata-se de uma obra pouco conhecida, mas de alto valor histórico, que não só relata os acontecimentos daquele período, como nos revela a personalidade, o carácter e inteligência dos intervenientes. Tive o privilégio de participar, ainda que brevemente, na Comissão de Redacção, quando presidida pelo Embaixador Paula Coelho, já que, tendo-se estendido por vários anos a feitura da obra, foram muitos os responsáveis pela mesma. Nenhum historiador responsável pode ignorar esta obra.

3º.- há que passar uma esponja sobre tudo o que de propaganda se tem dito, após o 25 de Abril, que isso, sim, na sua maior parte é tendencioso, levando sempre a denegrir a figura do responsável pela politica externa de Portugal, o que de altamente positivo trouxe para o País essa mesma politica externa, sobretudo em períodos tão conturbados e difíceis, nunca antes vividos pelo Mundo, ainda que se enalteçam pessoas que cometeram os maiores horrores e crimes contra a humanidade, responsáveis por milhões e milhões de mortes, de traições manifestas em politica externa, como o Pacto germânico-soviético de Agosto de 39,[ quanto a isto de certeza o Embaixador Calvet de Magalhães, com a sua teoria da “ética” nas negociações internacionais, consideraria abominável tal documento; já duvidosa seria a opinião de Kissinger, com a sua “realpolitik”!!!], que permitiu a invasão da Polónia pelos Nazis e os massacres que se seguiram, o apoio dos comunistas do Ocidente ao regime Nazi até á invasão de União Soviética, a invasão da Polónia, dos Países Bálticos , o massacre de Katyn, só muito recentemente assumido pela Rússia como sendo da responsabilidade, única e exclusiva da União soviética – ainda agora foram revelados por ordem de Medevev, alguns dos documentos mais secretos sobre este assunto, onde a ordem de execução de mais de 20.000 oficiais e altos politicos polacos aparece claramente assinada por Estaline e Beria –[de notar que quer a Inglaterra, quer os Estados Unidos mantiveram um “cover up” sobre a responsabilidade soviética de Katyn durante tempo demais], bem como o massacre da Finlandia com a sua resistência heróica, pelos comunistas de Moscovo, enfim todo um rol de atrocidades que se querem limpar, pura e simplesmente, da realidade histórica de uma Europa que atingiu o cúmulo da crueldade humana.

É com estes três elementos que devemos jogar para tentar, digo, tentar, compreender e apreciar a atitude de Salazar no decurso da guerra colonial, sua possível solução, pelo menos até á sua morte.

Nunca, repito, nunca compreendi como aquele estadista brilhante que foi em politica externa durante 10 anos, como Ministro dos Negócios Estrangeiros, agiu, como Presidente do Conselho, após as revoltas no ultramar. Á atitude iluminada, inteligente, sagaz, como “premonitora” que manifestou de 36 a 45 substituiu-se uma resistência, quase obsessiva, ás realidades, o não reconhecimento, voluntário e consciente, do mundo real que o rodeava [apesar de tantos e tantos avisos, quer externos, digo, de altas personalidades mundiais, quer internos] numa teimosia absolutamente fora dos contornos do que seria, tinha que ser, uma inteligência brilhante e cautelosa, como já dera mais que provas.

Insistindo sempre e sempre no que era evidente ser uma verdadeira falácia, “Portugal do Minho a Timor”, tendo á sua volta exemplos, mais que elucidativos do que outras nações, grandes potências, estavam a fazer ou já tinham feito em na Ásia e em Africa, persistia numa teimosia cujo principal elemento altamente negativo foi o de nunca, nunca ter procurado aceitar possíveis interlocutores do lado dos movimentos separatistas com os quais, de uma forma pacifica e civilizada, poderia procurar, pelo menos, uma transição para a criação de Estados independentes, segundo um processo bem diferente do que foi o que veio a acontecer com o 25 de Abril, salvaguardando [o que não seria difícil] os interesses e integridade física e moral de todas as populações. E então, o que viesse a suceder nesses Estados, de bom ou de mau, [diga-se que a experiência tem mostrado quase sempre de mau] já nunca seria da responsabilidade da potência colonizadora, isto é Portugal.
Para mim, pois, continua a ser um mistério o comportamento do Presidente do Conselho nos anos 60. Creio, muito sinceramente, que mais que um político ou historiador, seria do foro de um médico, psicólogo ou psiquiatra, procurar dar uma explicação para o que se terá passado na mente de um dirigente politico com a responsabilidade de um Salazar. Não faço aqui prognósticos e, muito menos, diagnósticos. Mas que um dia este assunto será devidamente tratado, não tenho dúvidas e á luz de toda uma personalidade que se manifestou nas mais altas esferas durante dezenas e dezenas de anos.



Na Embaixada de Portugal em Rabat



Em 1963, com apenas 24 anos de idade, fui nomeado Secretário da Embaixada de Portugal na capital do Reino Alaouite, tendo como chefe o Embaixador Dr. Eduardo Bugalho. Era para nós um posto “de relativa importância” [como escrevera então o Ministro dos Negócios Estrangeiros, Embaixador Franco Nogueira, num relatório para o Ministério da Defesa, a que tive acesso] um dos poucos que ainda mantínhamos em África, pois após a Conferência de Adis-Abeba quase todos os países africanos cortaram as relações diplomáticas connosco, e o único na África magrebina. Essa Embaixada manteve-se sempre até ao 25 de Abril, mais por interesses de Marrocos, que não queria perder um contacto estratégico com a Europa, sobretudo após os graves desentendimentos com o General de Gaulle e a França, após o assassinato, em Paris, de Ben Barka pelo General Oufkir – lembro-me bem da missão secreta que, por conselho do Ministro dos Negócios Estrangeiros Balafreje, o Rei Hassan II enviou a Portugal, pela base aérea militar de Sintra, com o Ministro Guedira, como chefe da delegação marroquina, o então Encarregado de Negócios de Marrocos em Lisboa, Tahar Mekhouar, e comigo como elemento de ligação entre as autoridades marroquinas e portuguesas [voámos de Rabat num velho DC3 do Palácio Real, decorado por dentro num estilo real] e do propósito do Presidente do Conselho, Doutor Salazar, de prestar apoio logístico a Marrocos, na sua guerra de fronteiras com a Argélia, o que tinha sido negado por Paris e mal atendido por Madrid [como nos tinha sido transmitido pelo Embaixador de Espanha em Rabat, Manuel Aznar, suponho que avô do Primeiro Ministro espanhol na década de 90. Aquele Embaixador, reputado jornalista e escritor no regime de Franco, apesar da grande diferença de idades, fazia o favor de me tratar sempre de uma forma muito amável , diria mesmo paternalista, sobretudo quando eu estava a chefiar a Embaixada pela ausência do meu Embaixador, o que viria a ocorrer com uma certa frequência. Era uma pessoa muito afável, cordial e que gozava, quanto mais não fosse pela posição que ocupava que era de grande importância para a diplomacia espanhola, de um grande prestígio quer em Espanha, quer, claro, em Marrocos] – do que por interesses próprios portugueses, já que a nossa penetração politico-diplomática era condicionada [ pouco sabíamos, como aliás a maior parte das Missões estrangeiras em Rabat, sobre o que de real se passava no país, como se viu pelo famoso livro “Notre Ami le Roi”, proibido em Marrocos ] e o nosso acesso “ás fontes que nos poderiam interessar” era bem limitado… - Muitos anos mais tarde, em 1993, li esse livro numa só noite, em Geneve, em casa do meu amigo John James de Martino, que era, quando em Marrocos, chefe da secção politica da Embaixada dos E.U.A., para ambos, pois foi ele quem me emprestou o livro, chegarmos á extraordinária conclusão que “nada sabíamos verdadeiramente do que de importante se passava no nosso tempo de diplomatas em Rabat” !.

A minha casa em Rabat era muito grande, fora a residência do Cônsul Geral de Portugal no tempo do Protectorado francês, e levava-me a aproveitar alguns serões livres de obrigações diplomáticas ou sociais para coligir, organizar, interpretar e estudar livros de genealogia e história e muitos documentos de família que levara comigo de Lisboa. O que me escasseava em mobiliário [muitas das divisões estavam pura e simplesmente fechadas] sobrava-me em larga escala em material de estudo.

Sucedeu um acontecimento, enquanto estive em Rabat, que considerei como insólito e estranho e, mais tarde, se tornou num verdadeiro drama que sempre considerei totalmente desnecessário e inútil, para além de criminoso. Devo ter sido a primeira pessoa a ocupar um cargo oficial que teve conhecimento ou da morte de Humberto Delgado ou, pelo menos, que algo de muito grave lhe teria acontecido.
Devo esclarecer que nunca tive especial apreço ou simpatia por aquele militar virado politico. E, muito menos, depois que, não tendo ganho as eleições, enveredou por um caminho que considerei pouco digno, meio apalhaçado e tão diferente do que fora a conduta de outros contestatários antes dele, como por exemplo o General Norton de Matos, e outros.
Mas o certo é que recebi na Embaixada um telefonema do director da Reuters em Rabat, Hughes, de quem éramos amigos – refiro-me ao Embaixador e a mim próprio – dizendo-me que recebera umas chamadas telefónicas de um português de nome [o Hughes não sabia pronunciar o nome e, assim, soava a “Uereiro” ou coisa parecida] o qual num tom angustiado lhe dissera, e repito textualmente pois aqui a memória não me falha, “que o General Delgado viera de Argel, estivera em Rabat, partira para Espanha onde passaria a Portugal para um encontro ou missão muito importante. Todos os dias enviaria ao tal português um postal; se ele deixasse de os receber era porque algo de muito grave lhe teria acontecido e era missão deste seu representante em Rabat alertar de imediato a imprensa internacional” . Isto mesmo era o que o Hughes ia fazer mas queria certificar-se comigo do nome correcto da pessoa em questão e se eu o conhecia.

Fiquei perplexo e extremamente embaraçado pois não conseguia chegar a conclusão nenhuma quanto á pessoa em questão que teria alertado o Hughes. Não me vinha á minha mente ninguém com nome que pudesse soar ao que o Hughes me referira e por isso, bem como, pelo assunto de que se tratava e a pessoa do director da Reuters [encontrava-me com ele várias vezes em cocktails das Embaixadas; almoçávamos frequentemente no Café Central do Boulevard Mohamed V para trocar impressões sobre o que se passava em Marrocos e com a politica portuguesa, em suma era uma pessoa amiga e de confiança] resolvi falar com o Embaixador e ouvir a opinião dele, sendo certo que eu era de parecer que se devia dizer, em telegrama confidencial, o que nos fora transmitido tendo em conta a fonte, que nos merecia confiança, ainda que tudo fosse feito de uma forma cautelosa e evitando qualquer compromisso da nossa parte. O Embaixador reagiu muito mal, parecia que lhe tinham falado no Diabo, e logo me disse que não queria meter-se em nenhum assunto que se referisse ao Delgado, ás suas ligações em Argel e muito menos a qualquer eventual extensão á P.I.D.E. E o assunto morreu assim.

Mas só quanto á Embaixada. Consegui determinar quem era o tal interlocutor do Hughes, de nome GUERREIRO, [que mais tarde se tornou famoso como politico do PSD, e, na altura, se encontrava em Rabat como refugiado politico, como outros por lá passaram ou ainda estavam, como o caso de Manuel Serra] bem como vim a ter conhecimento da morte do Delgado. Fiquei sempre com duas impressões:

  1. Delgado, quando saiu de Rabat, tinha como que um pressentimento de que algo lhe iria acontecer. Isto é, não ia confiante, e porque razão? De aí achar bem preparar aquele estratagema dos postais, pois como que se sentia poder vir a ser atraiçoado, creio que só por alguém que tivesse prévio conhecimento da sua ida, do seu encontro, onde, com quem, etc. etc;

  2. No momento a que me refiro a figura de Delgado, quer como politico oposicionista do regime, quer como “trunfo” que ameaçasse esse mesmo regime era mais que duvidosa. Eu diria mesmo, nula. Consequentemente a sua morte em tais circunstâncias em nada aproveitaria o regime, seria uma jogada”em branco”

ou até mesmo altamente negativa. Salazar não podia deixar de apreciar tal facto e logo politicamente nunca o poderia sancionar. Em nada ganhava e tudo teria a perder. De aqui tirem-se as conclusões que se quiserem, mas procure-se o bom senso para chegar a uma conclusão tão perto da verdade quanto possível.


Houve um acontecimento algo caricato, mas com um significado relacionado com o que anos mais tarde iriam revelar uma zona do Mundo das mais ricas e desenvolvidas, hoje bem conhecida.

Num dia em que estava como Encarregado de Negócios a.i. encontrei, ao chegar á Embaixada, um enorme monte de passaportes aí postos pela Vice-Consul, Madame Catalano [italiana de nascimento, eficientíssima, que viera para o então Consulado de Portugal em Rabat para se ocupar dos cidadãos italianos quando, durante a 2ª. Guerra Mundial Portugal passou a ocupar-se dos interesses italianos em Marrocos francês; os italianos eram inimigos dos Aliados e foram internados. A Madame Catalano acabou por ficar no Consulado, foi promovida a Vice-Consul, condecorada pela Itália com a Ordem da Coroa por Vítor Emanuel III e, depois, com a Ordem de Mérito pela República italiana. Não perdia a comemoração na sua Embaixada do Dia Nacional de Itália, onde ostentava, com muito orgulho, as suas duas condecorações].

Aqueles passaportes pareciam ser ingleses. Devo esclarecer que o Reino Unido concedia passaportes a pessoas dos territórios que governava, emitidos regularmente, mas que não concediam aos titulares a nacionalidade britânica. Assim acontecia com os referentes aos Trucial States- justamnente os que estavam na minha secretária. A Madame Catalano não sabia que fazer, sobre a concessão de vistos para entrada em Portugal, já porque todos, literalmente todos os passaportes de mulheres não tinham fotografia, mas uma impressão digital. E eram muitos, numa proporção de aproximadamente três de mulheres para um de homem.
Entendi solicitar instruções a Lisboa, mas primeiro desejei falar com um dos homens. Apareceu-me um árabe, de túnica e turbante, cujo nome fixei, e por curiosidade vim a encontrar muitos anos mais tarde em grandes avenidas, praças de …Dubai. Maktum, agora Sheikh tal e tal El Maktum. E Al-Nahyane, hoje “Ruler” de Abu Dhabi. Nem mais.

Aceitei o que me disse, transmiti para Lisboa a pretensão de todas aquelas pessoas explicando que por razões éticas e religiosas as mulheres não podem ter fotografias em público, mesmo oficialmente. Os vistos foram autorizados e concedidos depois.
Confesso que, pelo que tinha a fazer de trabalho, não pensei mais no assunto. Mas fui surpreendido com uma notícia que mais tarde vi no Diário de Noticias [o jornal que se recebia nas Embaixadas] sobre um grupo de árabes que teriam acampado em tendas próprias ou no Parque Eduardo VII ou em Monsanto. Já não me lembro, mas vinha uma fotografia; sobre o desfecho já nada posso acrescentar agora ao fim de tantos anos.

Mas ao fim de menos anos, muito menos, acabaram os Trucial States; descobriu-se petróleo na região dos Emiratos Árabes Unidos e aqueles árabes de 1963 tornaram-se Sheiks e Príncipes de Dubai, Abu Dhabi, Sarjha, Rãs El Kaiman, Fujeira, Ajman, Um mal-Quwain, “os 7 Magníficos”, enormemente ricos 2 ou 3, mas estes capazes de subsidiar os restantes. Anos mais tarde estive mais que uma vez em Dubai, Abu Dhabi e Sarjha e perante tal ostentação, continuando, no entanto, a ver homens muito parecidos com os que vi em Rabat e mulheres, de véu mas altamente sofisticadas, a par de indianos, paquistaneses, filipinos que são “os robots” que trabalham para aqueles seus senhores, não deixei de me lembrar do que aconteceu na Embaixada em Rabat, no meu contacto com um então já Sheik, mas sem dinheiro, e no que toda aquela gente viria a tornar-se com- 1, o fim dos Trucial States, em 1971; 2, a descoberta e exploração do ouro negro, que ali jorra aos montes. Duvido que quando lá fui pela primeira vez algum dos Maktums ou outros cujo nome nunca fixei, se lembrasse de mim e da sua, deles, entrada em Portugal. Aliás, se sim, pouco ou nada adiantaria para além de uma simples curiosidade.



Na Direcção-Geral dos Negócios Económicos do M.N.E.



Em 1966, estando nas Económicas, fui encarregado de preparar, elaborar e estabelecer por escrito 5 tratados luso-brasileiros que ficaram conhecidos como os de 1966. Quatro económicos – financeiro, comercial, tributário e de investimento – e um cultural, este elaborado com o competente departamento do M.N.E. Era Director-Geral dos Negócios Económicos o Embaixador Calvet de Magalhães e meu chefe directo o que veio a ser mais tarde Embaixador José Joaquim de Mena e Mendonça, a quem aqui presto uma muito sentida homenagem – nunca, mas nunca vi ninguém trabalhar tanto, tão bem e com tanta dedicação como este ilustre diplomata que esteve sozinho á frente de todo o Departamento Económico do M.N.E. até á remodelação dos serviços e sua divisão por áreas geográficas. Então viria a chefiar a Divisão Europa-América.

Devia igualmente delinear, primeiro, e concretizar depois um instrumento diplomático que estabelecesse uma Comissão Mista Luso-Brasileira a reunir periodicamente e alternadamente no Brasil e em Portugal.

Durante os primeiros 8 meses do ano de 1966 trabalhei intensamente em todos aqueles assuntos e os acordos foram assinados em Lisboa, em 7 de Setembro desse ano pelo Ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal, Embaixador Franco Nogueira e pelo Chanceler do Brasil, Juracy de Magalhães. Foi um manifesto sucesso para as diplomacias dos dois países e, claro, para mim. O Governo brasileiro condecorou-me então com a Ordem do Rio Branco.


Assinatura dos Acordos Luso-Brasileiros de 7 de Setembro de 1966
Palácio das Necessidades
de pé, Embaixador Ouro Preto, do Brasil, o autor, Embaixador Calvet de Magalhães, Conselheiro da Embaixada do Brasil, Mário Lagoa, Secretário de Franco Nogueira
sentados, Chanceler do Brasil, Juracy de Magalhães e Ministro Franco Nogueira
[o ministro Franco Nogueira está a olhar, com uma certa curiosidade, para a caneta
Parker de prata que lhe emprestei para assinar os acordos, prenda da minha noiva]



Preparou-se a ida da missão diplomática portuguesa ao Brasil no quadro da Comissão Mista Luso-Brasileira.

Mas houve um pequeno incidente. Um colega meu, Menezes Cordeiro irmão, quando se apercebeu da ida ao Brasil, tentou ultrapassar-me ou intrigar. Mas sem êxito!
No Ministério dos Negócios Estrangeiros as intrigas são frequentes. Têm de ser muito bem feitas e subtis para serem eficazes. Neste caso não tive dificuldade em desmantelar a “tramóia” que me era preparada. Assim Menezes Cordeiro ficou em Lisboa e não muito bem visto em acção tão sórdida.

Todos os Ministérios brasileiros estavam já em Brasília. Mas o dos Negócios Estrangeiros, Itamaraty, continuava no Rio de Janeiro, bem como naturalmente todas as Embaixadas estrangeiras. Assim foi, felizmente, no Rio que se deu a reunião da Comissão Mista:
O Embaixador português Bataglia Ramos estava ausente pelo que havia um Encarregado de Negócios a.i., Adriano de Carvalho, mais tarde Adjunto Económico e Embaixador em Brasília, pessoa com um feitio difícil e conhecido como tal.

Eu fui á frente para preparar a logística da reunião e a instalação da missão que era numerosa. Logo vi que ia ter problemas com o Adriano de Carvalho, como tive muito de início. Coisas pequenas, sem importância, mas incómodas e que poderiam prejudicar-me. Felizmente logo que o Calvet de Magalhães chegou e o Adriano de Carvalho viu como ele me tratava tudo se facilitou para mim e, em geral, para todos.

Da reunião pouco me lembro. Sinal de que não fora famosa e que iria ter – refiro-me á Comissão Mista – futuro pouco brilhante, como creio aconteceu, pois nunca mais ouvi falar de tal Comissão Mista nem de encontros luso-brasileiros periódicos e alternados.

Porém fomos a São Paulo, Santos, Belo Horizonte e, claro, Brasília. A estadia foi de cerca de 1 mês e estávamos de regresso para o Natal de 1966.

Foi nessa altura, na praia de Copacabana e no meio de milhares de pessoas que encontrei, por acaso, uma rapariga jovem de nome Celina de Souza Girão, para meu espanto, que sendo filha do grande e muito conhecido no Ceará Prof Raimundo Girão, me pôs em contacto com o pai, autor de uma vasta obra genealógica dos Girões do Brasil.

Não me esqueço que em Santos o Cônsul português nos levou de carro, em barco, á ilha do Guarujá, naquela altura totalmente deserta, onde num óptimo clube privado, Jaquitimar, tomámos, á vontade, um magnfico banho de mar. Creio que hoje o Gaurujá mais parece uma “ilha de leões marinhos” tantas são as pessoas que lá estão ou vão!!!

Em 1967 o Embaixador Calvet de Magalhães, apoiado pelo Saragga Leal´, que representava uma grande companhia portuguesa exportadora de cortiça para o Leste europeu, teve a brilhante ideia de encetar contactos económicos com um ou mais países comunistas. Ainda não se sabia bem qual ou quais, mas as negociações feitas pela Embaixada de Portugal em Viena – já que não tínhamos representação diplomática nesses países – acabaram por estabelecer uma possibilidade firme, ainda que pontual, com a Roménia. Toda a ideia, que fora dos dois parceiros da Direcção- Geral dos Negócios Económicos, Embaixador Calvet de Magalhães e Mena e Mendonça, foi-me entregue para concretizar todos os planos de forma definitiva, o que não seria fácil, quer pelos países que se veriam envolvidos, quer pela variedade de assuntos a tratar o que obrigaria a fazer deslocar uma delegação portuguesa a Bucareste com vários membros, representantes de tantos os Ministérios quantas as matérias que seriam tratadas.

O tempo foi passando com um intervalo em Agosto desse ano de uma reunião, igualmente preparada por mim [que tinha de me desdobrar em trabalho bem sério] no quadro da EFTA entre Portugal e a Dinamarca, em Copenhague, chefiada pelo Ministro Magalhães Cruz, Adjunto do Director-Geral dos Negócios Económicos [que viria a ter um papel preponderante no Ministério com o 25 de Abril]. Como escrevi, esta reunião igualmente planeada e preparada por mim, era de muito mais fácil execução que a outra de Bucareste- secreta – mas que teve manifesto sucesso afirmando a nossa posição na EFTA, contraponto da Comunidade Europeia. Salazar não quis que Portugal entrasse na Comunidade Europeia [creio que na altura contrariando o parecer do Embaixador Teixeira Guerra, conhecido pelas suas aptidões para assuntos económicos] e preferindo a EFTA que tinha países europeus de prestigio pelas razões que também lhe eram próprias.

Terminada esta tarefa continuei com a reunião de Bucareste. Partimos num domingo de manhã, aliás fatídico, pois na véspera, sábado, tinha chovido tanto que houve a famosa cheia de fim de Novembro. Rigorosamente não me apercebi da dimensão da tragédia até que, havendo que fazer transbordo em Zurique para continuar para Viena, vimos nas primeiras páginas dos jornais o sucedido em Lisboa e o número mortos rondando os 500.

Em Viena estivemos 2 dias. Aí fui a um banco e perguntei se poderia trocar dólares americanos por leis- a moeda romena. Disseram-me que sim mas que seria sob minha responsabilidade, já que pela lei romena não se podia entrar no país com moeda local. Ao informarem-me que o câmbio era então de 25 leis por 1 dolar eu disse que sim, que assumia a responsabilidade. Mas por questão de camaradagem fui comunicar aos colegas da delegação. Nenhum quis e o mais rigoroso foi o representante do Ministério das Finaças, Dr qualquer coisa Correia, que me afirmou nunca iria transgredir a lei.

Por sua vez o Dr. Silva Lopes por quem o Embaixador Calvet de Magalhães tinha grande apreço e, sendo jovem, parece que deixava antever a sua carreira brilhante no Banco de Portugal, Caixa Geral de Depósitos e Ministro das Finanças pura e simplesmente não se pronunciou. Aliás já tinha estado connosco noutras missões e parecia-me ser sempre pessoa muito competente e muito reservada. Confesso que nunca cheguei a determinar então a sua cor politica!!!

Refiro este pormenor porque, logo á chegada a Bucareste e tendo ficado no melhor Hotel, o Atené Palace, mesmo em frente é sede do partido comunista, [onde estava aliás a decorrer a eleição do novo Secretário-Geral, em substituição de Stoika, tendo sido escolhido então nada mais nada menos que Ceaucescu] havia que cambiar divisas. Existia um gabinete próprio do estado e foi aí que se deu a cena mais caricata logo á nossa chegada. O tal representante do Ministério das Finanças, que não quisera transgredir a lei, foi trocar dólares. O câmbio era de 12 leis por 1 dolar- quando em Viena era de 25 leis. Mas ao apresentar o passaporte português, que era diplomático e o fazia com grande pompa e orgulho, a funcionária perguntou-lhe se o passaporte era ou não de turista. Evidentemente que o dito membro da delegação apressou-se a dizer que não, que era um passaporte diplomático. Resposta imediata da funcionária do Intertourism – não sendo passaporte de turista então o câmbio é de 8 leis por 1 dolar.
Nessa altura o nosso colega não se conteve. Chamou-lhes ladrões e certamente ficou arrependido de não ter aceite a minha sugestão em Viena.

Ainda aquando da minha chegada eu já sabia que ia haver um tipo de cena picaresca. Estavam em Bucareste na Embaixada americana os meus grandes amigos dos tempos de Rabat John e Helene de Martino. Esta era lindíssima e assim continuava. Num belo casaco de vison, alta, esbelta, loura a acenar e a gritar por “Guilherme, Guilherme” á nossa chegada ao aeroporto, até porque tinha facilidades diplomáticas, causou um sucesso em portugueses e romenos e eu fiquei com o meu ego muitíssimo reconfortado…

As reuniões podem resumir-se em curtas e simples palavras – em 3 semanas de encontros no Ministério dos Negócios Estrangeiros vendemos de tudo aos romenos, mesmo grandes quantidades de produtos das nossas então províncias ultramarinas [não obstante as posições politicas contrárias ás nossas posições – a isto se chama de “realpolotik”] e nós comprámos-lhes também tudo o que nos interessava. Leváramos grandes quantidades de produtos portugueses a título de oferta promocional. Houve de inicio dificuldades na entrada desses produtos, se na entrada em si, se por ser a título de oferta. Mas eu tomei como boa a segunda hipótese, já que, uma vez salva a face, tudo se resolveu para bem e quem ficou com essa grande quantidade de produtos ainda hoje não sei. A Roménia sempre foi, e continua a ser, conhecida pela corrupção desenfreada…

As reuniões eram frente a frente com uma larga mesa a separar-nos. Já no final os romenos aperceberam-se de que nós, com uma língua latina, podiamos perceber muito do que eles diziam, já que o romeno tem uma forte origem latina. Foi um manifesto embaraço para eles, mas não passou disso mesmo.

Mas embaraço foi, na verdade para mim, com o que aconteceu na cerimónia final da assinatura dos acordos. Entrámos numa sala ricamente talhada a ouro fino nas paredes e no tecto, com um grande aparato e várias pessoas oficiais. Sobre duas mesas com veludo vermelho estavam os tratados, lacre e respectivo acessório para o derreter. Foi então que nos pediram o selo da República Portuguesa para lacrar os tratados.
Fiquei nervosíssimo pois nunca pensara em tal, ou melhor, esquecera completamente que não havia em Bucareste Embaixada de Portugal. O Embaixador Calvet de Magalhães olhava para mim, apercebeu-se do que se estava a passar. Foi então que tive uma ideia “genial” – sendo eu o Secretário da Missão, e á moda antiga, seria o portador do selo oficial. Assim tirei do meu anel de brasão, que usava no meu dedo anelar – vinha já de meus avós, via meu Pai; era á moda antiga, de aço brunido, forrado a ouro e com rebordo também a ouro. Tinha a correspondente gravação.

Foi a solução para o problema. Já não me recordo de quantas tratados eram, mas muitos, e todos eles foram autenticados com o selo da República Democrática e Socialista da Roménia e o meu próprio brasão. Os respectivos exemplares, em duplicado, estão certamente desde 1966 nos arquivos dos Ministérios dos Negócios Estrangeiros de Portugal e da Roménia. Por essa ocasião foi-me atribuída a Ordem de Vladmirescu, [muitos anos depois, em 2005, fui de turismo a Praga e Budapeste, que conhecera no tempo do comunismo. Em Budapeste encontrei-me com o meu grande amigo Conde Andras Yankovich-Besan, que vivia então num óptimo apartamento com uma senhora húngara, mas da minoria húngara da Transilvania. Quando lhe falei na nossa missão a Bucareste e na Ordem de Vladmirescu ela riu-se e disse-me”sabe que ainda ninguém compreendeu bem quem foi esse tal de Vladmirescu. Parece que teria sido, julga-se, um camponês que os comunistas transformaram em herói. Mas adiante, é da história e assim permanecerá…” Não consegui deixar de me lembrar da Catarina Eufémia, que se os tempos tivessem sido outros certamente teria o seu nome numa Ordem como o Vladmirescu].

Por último e ainda sobre a estadia na Roménia, para além das viagens a Ploiesti, Brasov, á fronteira com a Bulgária sobre o Danúbio e a Cluj, capital da famosa zona de predominância húngara, passei uns bons bocados com os de Martino. Com a Helene fui á única loja de antiguidades, que pertencia ao estado, e graças ao câmbio que fiz em Viena, comprei o meu primeiro icon, que ainda tenho, a Anunciação, ou Evangelismos [em grego, pois suponho ser escola de Corfu, de influência veneziana]; tive jantares em casa do casal. Como estava presente uma criada local fui logo instruído para nada dizer de especial dentro de casa; depois do jantar, e apesar do frio, íamos para o jardim e aí conversávamos á vontade. Assim se vivia nos países comunistas, mesmo os diplomatas ou especialmente os diplomatas.



Cônsul de Portugal em Durban



Em Março de 1968 fui colocado, a meu pedido, como Cônsul de Portugal em Durban. No movimento diplomático que se fizera então havia-me sido destinado o Consulado no Recife. Eu não queria nada o Brasil. Em matéria de língua nada adiantava; quanto á comunidade portuguesa só tinha dado problemas, sobretudo com uns tantos intelectuais “do contra” que depois parece que não tinham nada nas gavetas, pois pouco ou nada chegou a ser publicado de valor pós-25 de Abril. Tive uma certa dificuldade em mudar a direcção que me haviam reservado. A Maria Garcia, que tratava do pessoal e fazia os decretos de nomeação, ainda chegou a dizer-me “como sempre o mesmo rebelde e cabeçudo; mas anime-se que já estou a fazer o seu decreto para Durban” O Ministro tinha concordado. Aliás, para ele, o A ou B para Durban ou Recife era um pequeno assunto e por isso consegui, sempre argumentando com a valorização em termos de carreira.

Casara e preparava-me para ter uns anos de felicidade em condições então muito favoráveis para os diplomatas estrangeiros – em termos de casa, facilidades no quotidiano, clima, um desenvolvido nível de civilização, pelo menos para a sociedade dirigente, etc, etc. E, assim, continuaria com o meu trabalho em termos de tranquilidade, bem estar e conforto.

Não realizei, porém, que o Consulado em Durban era de todos da África do Sul o mais importante geo-politicamente considerado. Não quer dizer que tivesse sido antes, nem que continuasse a ser no futuro. Era tão simplesmente por questões relacionadas com a presença de Portugal no Mundo e a situação politica sul-africana.

O de Capetown era um Consulado tradicional; o de Johannsburg era e será sempre virado para a comunidade portuguesa e para os aspectos económicos e comerciais; o de então Windoek era como que “uma inexistência”. Não significava nada, não exercia qualquer actividade relevante, ainda que cerca da fronteira sul de Angola. Encontrava-se numa verdadeira aberração da Sociedade das Nações – o Sudoeste Africano – entregue como protectorado á Africa do Sul – com uma população mínima branca, quase só de funcionários “afrikanders” para ali deslocados, e em termos de carreira diplomática portuguesa servia para cumprir com a regra de um certo número de anos de serviço consular para promoções futuras. Assim aconteceu com os Consules que por lá passaram, quase que unicamente para tal fim.

Em Durban deparei-me com relações frequentes e importantes com o Governo Geral de Moçambique e outras entidades; algumas vezes com Angola mesmo, com assuntos directamente relacionados com a Rodésia e o Malawi. Durban, aliás, tornara-se o porto mais importante da África Austral depois do fecho do Canal de Suez. Chegavam a estar 50 e mais barcos em espera para entrar a barra !

Foi por essa altura que se comemoraram os 500 anos do nascimento de Vasco da Gama, que dera áquela terra o nome de Natal.

Era uma ocasião excelente de aproveitar para reforçar o nome de Portugal, a sua história o quanto o Mundo ficou a dever aos portugueses.
Durban, aliás, já tinha uma figura muito importante portuguesa, mas de carácter literário e, evidentemente, muito mais moderna. Tratava-se de, nem mais nem menos, que Fernando Pessoa, que estudara no melhor Colégio de Durban quando o seu padrasto, oficia de marinha, era justamente Cônsul de Portugal. É bem lembrado no Natal quer no Colégio quer nos meios eruditos. Ainda se falava no Prémio Rainha Vitória que Pessoa obtivera justamente com uma dissertação, á inglesa, na sua estadia no Colégio de Durban.

Assim que tentei aproveitar a ocasião da celebração dos 500 anos do nascimento de Vasco da Gama para o fazer em duas direcções – como homenagem luso-sul-africana a ser prestada, de forma condigna, em Durban; a levar as autoridades sul-africanas a celebrarem, igualmente de forma condigna, mas agora em Portugal.

Quanto ao primeiro caso mobilizei o Clube Português do Natal [não queria, por razões óbvias, ser eu ou o Consulado a parecer como tomando a iniciativa] a erigir uma lápide em memória de Vasco da Gama. Assim se fez, com granito preto , e uma inscrição bem estruturada sob o brasão de armas dos Gamas, mas de Vasco da Gama. Seria colocado em local privilegiado e numa cerimónia condigna.

Por coincidência estava em doca seca a fragata Pacheco Pereira e seria assim possível juntar as marinhas portuguesa e sul-africana a marcar a cerimónia de descerramento da lápide.



Monumento em granito negro a Vasco da Gama pelos 500 anos do seu nascimento;
áquela terra chamou Natal, quando nela aportou na sua viagem para a India
Corpo de Marinheiros e Oficiais da fragata Pacheco Pereira
Por trás o “Vasco da Gama Clock”, outro monumento mais antigo, ao navegador.
Durban, Marine Parade, 9 de Agosto de 1969




Antes de descerrado o monumento, a Marinha de Guerra sul-africana
e um Corpo de Marinheiros e Oficiais da fragata Pacheco Pereira



Depois de descerrado o monumento
O Embaixador de Portugal em Pretória e o autor, Cônsul de Portugal em Durban


Relativamente ao segundo ponto, tive vários contactos com o Governador do Natal, Theo Gardener, e, um pouco para minha surpresa, consegui interessá-lo num projecto de uma estátua em bronze, de corpo inteiro, a ser feita por um escultor de mérito. Foram-me apresentados 3 ou 4 modelos e achei melhor o que apresentava o navegador em traje da época, com a Cruz de Cristo, numa posição de comando.

Foi feito, aprovado também em Portugal, e, acompanhado por Theo Gardener, veio para Portugal tendo sido colocado nos jardins do Palácio de Évora, em sessão solene, onde ainda hoje se encontra. Tive uma certa dificuldade em explicar o porquê da localização da estátua, pois apercebi-me que se esperava fosse em Lisboa. Muito sucintamente expliquei ao Governador do Natal que o Palácio de Évora, chamado de Dom Manuel [o Rei D. Manuel I] fora uma sumptuosa residência real, sendo certo que pouco resta hoje do seu esplendor. Mas foi nele que D. Manuel I encarregou Vasco da Gama de chefiar a esquadra que descobriu o caminho marítimo para a India, pelo que era mais que apropriado colocar a estátua nos seus jardins, ainda hoje bem cuidados.

A explicação foi bem entendida e aceite; e eu recebi um muito elogioso ofício do Director-Geral dos Negócios Políticos, Embaixador Caldeira Coelho, e foi tudo.

A comunidade portuguesa era vasta, activa e próspera; a população local branca era maioritariamente de cariz anglo-saxónico [poucos “afrikanders”] e a negra de uma coesão, altivez e sentido histórico próprios que caracterizam os zulus.

Havia muitas actividades relevantes sendo, talvez, a maior a organização chamada de “ajuda humanitária” para os combatentes portugueses de Moçambique. A pessoa mais activa neste campo era Pam Hanssen que dedicava todo o seu tempo a esta tarefa. Como que encontrava nela uma válvula de escape para os conflitos do seu ego mais profundo, ainda que não se pudesse negar o sentido altruísta da missão. Esta acabou por tomar proporções em donativos [incluindo um Cessna totalmente equipado com material médico e cirúrgico] enviados em contentores, mas que eu como Cônsul de Portugal desconhecia inteiramente a sua natureza, valor, etc. Pode dizer-se que o contacto era directo entre a organização do Natal e as competentes autoridades portuguesas
de Moçambique.


Recepção de cumprimentos ao Presidente da África do Sul na sua estadia anual na
State House” de Durban, Julho de 1970
o autor, Sra Hanssen, Maria Manuela de Souza Girão, General B. Vender
Comandante Militar do Natal




Recepção do Governador do Natal, Ministro-Presidente Theo Gardener e Senhora
Dia do Natal, Maio de 1971
Senhora Gardener, Ministro Gardener, Maria Manuela de Souza Girão e o autor
Pietermaritzburg, Natal




A diplomacia como verdadeiramente entendida e praticada tem como fundo o que se chamou de “realpolitik”. Pouco ou nada conta a defesa dos direitos, liberdades e garantias do homem; são fundamentais os valores geo-politicos, a defesa da soberania e integridade dos Estados e o que se considera dos seus valores e interesses permanentes. Foram peritos nesta matéria os diplomatas soviéticos, agindo sempre de uma forma triturante e já antes, agora e creio que sempre os próprios E.U.A. Assim que em Washington mudam as administrações –democráticas e republicanas- mas quase sempre há como que uma conduta constante na linha da diplomacia norte-americana. Apenas uma adaptação aos casos pontuais, como seria de esperar.

Segundo o Embaixador José Calvet de Magalhães, escrito em 2001, “princípios importantes a ter em conta na condução das negociações são o de negociar de boa-fé, evitar falsidades, usar de boas maneiras […] o uso da mentira nas negociações só pode levar ao fracasso pois destrói a confiança entre os negociadores […]. Mas já “os realistas, como Henry Kissinger, defendem que esse tipo de raciocínio [tentar introduzir um elemento ético na política externa] é um luxo [sic] perigoso, que destrói os cálculos em relação aos interesses nacionais dos quais o sistema internacional depende” , Shaun Riordun, 2003.

Com todo o respeito que me merece a memória do Embaixador Calvet de Magalhães, como me mereceu a sua pessoa em vida [um grande negociador diplomático como tive a oportunidade de observar, e admirar, pessoalmente, quer na matéria económica, sua especialidade, quer na matéria diplomática “tout court”], não posso deixar de considerar que o Embaixador refere-se ao que chamarei de “micro diplomacia”, isto é, a diplomacia no terreno, a que se pratica no frente a frente, ou na mesa das negociações. Que esperar, pois, de um gentleman, como sempre foi o Embaixador? Mas Kissinger refere-se, sim, á macro diplomacia, á que se giza no Gabinete, em decisão a sós, por decisão própria ou após, como é mais usual, estudo e discussão conjunta entre o decisor e os seus acessores.

Connosco diplomatas de carreira [e não políticos pois esses surgiram pós 25 de Abril, logo a nível de Embaixadores, e eu tive a triste ocasião de ter de tratar com um desses] a regra era a de não nos imiscuirmos nos assuntos, na politica, na filosofia sócio-económica do Estado no qual tínhamos sido acreditados e seguir uma conduta cuja orientação competia ao Ministério dos Negócios Estrangeiros português transmitida de diversas formas – aos Embaixadores directamente daquele Ministério, aos Cônsules e Cônsules Gerais pelos Embaixadores respectivos e, também, directamente pelo próprio M.N.E., se fosse caso disso.

Assim a minha atitude e todo o meu muito e confesso inesperado trabalho durante os anos que passei em Durban foi orientado por aqueles princípios. Se me repugnava ou não a politica de “apartheid” não me competia manifestá-lo. Aliás Portugal nunca seguiu ou aprovou oficialmente essa politica, competindo-lhe, porém, ter boas relações com um Estado que muito representava para os nossos interesses e, curioso que se diga, para o de milhares de trabalhadores, então portugueses, africanos a trabalhar na Africa do Sul.

Assim era e será a diplomacia internacional dos Estados.

Mas também a minha acção na tal matéria de ajuda humanitária a Moçambique foi permita-se a expressão, cautelosa. O Embaixador em Pretória, Menezes Rosa, deu-lhe toda a cobertura, em especial aquando da sua visita oficial a Durban em Agosto de 1969, distinguindo a Senhora Hanssen. Mais tarde esta sempre desejou uma condecoração portuguesa, o que deveria partir do Cônsul, neste caso eu, seguido do Embaixador. Achei que aqui sim, seria comprometer demasiado o Estado português pelo que nunca propus tal. E tudo se limitou a um convite formal de visita a Portugal, o que desapontou, como não me surpreendeu, aquela Senhora.

Devo confessar que nem tudo, na minha estadia em Durban, foi difícil, problemático ou de situações exigindo decisões mais graves e ponderadas. A certa altura fui destacado para ser Encarregado de Negócios a.i. em Mbabane. Foi no verão de 1970, quando o Embaixador português tomou as suas férias de 3 meses a que tinha direito após 3 anos de serviço externo – a licença registada. Estive, assim, em Mbabane Julho, Agosto e Setembro [justamente quando nasceu, em Durban, o meu filho-Agosto] chefiando uma das únicas três Embaixadas que ali existiam, a dos E.U.A., a do Reino Unido e a nossa.

Não havia muito que tratar, salvo, claro, as relações da Suazilândia com Moçambique e pouco mais. Mbabane era uma cidade que vivia do casino e do facto de ter uma única estrada alcatroada que ligava o casino á Africa do Sul e permitia aos sul-africanos vir á Suazilândia para jogar e, sobretudo, para ter relações com mulheres de raça negra, o que na Africa do Sul era crime, sujeito a penas pesadas. As relações sexuais entre brancos e negros eram totalmente proibidas na Africa do Sul, mas a fronteira entre os dois países, que não existia de forma visível, era a salvaguarda para tais situações. De resto Mbabane definia-se por um simples facto – era uma cidade, capital de um reino, com um só semáforo!.

Mas não posso esquecer as relações que cheguei a ter com o Primeiro Ministro, Dlamini, parente do Rei, e o ter sido recebido pelo próprio Rei, Shobusa II, homem de setenta e muitos anos na altura, por ocasião da Festa Nacional da Suazilândia, que é em data de que não me lembro, mas em Agosto. Tudo se passou numa casa que poderiamos considerar como uma vivenda de alto luxo, mas não um palácio, nem como edifício, nem como mobiliário. O Rei estava sentado; a mim puseram-me, depois de uma reverência protocolar, num sofá normal junto a uma mesa de apoio. O Rei estava coberto por uma pele de animal selvagem, de tronco meio nu, e várias penas, muito bem tratadas, lustrosas e coloridas, na cabeça. De resto todos os presentes, desde Primeiro Ministro, Ministro dos Negócios Estrangeiros e outros dignatários estavam sentados no chão, alguns de forma manifestamente incómoda para a idade, outros, mais privilegiados, encostados a cadeiras ou outros móveis. A conversa, em inglês fluente e perfeito por parte do Rei, foi totalmente protocolar, sem que eu deixasse de manifestar, e devo dizer, muito sinceramente, quanto admirava o aspecto físico de Sua Majestade, o que me parecia ser um sinal de “juventude” em pessoa que não deixava de ter a idade que era conhecida e não era nem escondida, nem escamoteada.

Foi também notável, a todos os títulos, a grande festa que se verificou no estádio da cidade por altura da festa nacional. Com a presença muito especial de S.A.R. a Princesa Alexandra de Kent, em representação oficial e pessoal da Rainha Isabel II, [que havia sido recebida pelo Rei pouco antes de mim] tudo começou com a chegada espectacular das quarenta e tal mulheres do Rei, que entraram em grandes limousines no estádio e
ocuparam os lugares de honra da bancada principal subindo em fila , por regra hierárquica, até aos seus lugares. Havia de todas as idades, mas distinguia-se logo quem era, ou quem eram as mulheres seniores, ás quais as outras manifestavam especial respeito e deferência. A seguir chegou o Rei, ainda mais “tribalmente” vestido de quando me recebeu, pois desta vez vinha de escudo, protecção de guerreiro e lança de ponta aguçada. Ficou no palanquim decorado com as armas da Suazilândia, tendo apenas junto a si dois ou três homens de meia idade, que me disseram ser os seus filhos mais importantes, sendo um deles o que lhe sucederia [o número de filhos e filhas era incontável].

No terreno juntaram-se, diria, milhares de guerreiros, ou assim me pareciam, pelas vestes, gritos, saltos, etc. O espectáculo era único para os olhos de um europeu, mesmo como eu, já mais ou menos habituado a situações algo folclóricas. Mas tudo excedeu tudo quando Shobusa II desceu, de escudo e lança na mão, para o estádio e colocando-se á frente de todos os homens dançou, gritou, gesticulou e sempre a ritmo perfeitamente sincronizado com todos os figurantes, tendo-se atingido, nas bancadas, no campo e á volta do próprio estádio um clímax que só em Africa se pode viver.

Com a chegada do Embaixador, deixei Mbabane, regressei a Durban – para ver o meu filho Manuel – trazendo comigo uma lembrança inesquecível do tempo que passei na Suazilândia. Deixo aqui o relato destes acontecimentos justamente quando acabo de ter conhecimento do casamento, pela não sei quantas vezes, do Presidente da Africa do Sul, juntando, assim ás mulheres que já tem uma mais, e ele com perto de setenta anos sendo Chefe de Estado de um país com uma presença regional e, sobretudo, internacional que poucos outros pises no Mundo têm no momento actual. Até aqui a diplomacia tem de se habituar ás tradições e colaborar, de forma realista, com a vivência dos povos por mais atípica que ela seja…Já lá vai o tempo de se pretender, diplomaticamente, moldar a forma dos países estarem no Mundo, quer segundo as regras da civilização material, quer segundo “os valores morais mais ou menos vitorianos”!

Houve em Durban um incidente algo misterioso que ainda hoje não encontrei explicação para tal. Dele resultaram vários mortos, tendo eu acompanhado durante algum tempo a família de alguns, em especial a do comandante do navio, como, aliás, vim mais tarde a acompanhar também a família do Tenente-Coronel Maggiolo Gouveia, Comandante da Policia de Dili, morto também algo misteriosamente em Dili aquando do golpe da Fretelin em Agosto de 1975.

Em Durban foi o seguinte : numa manhã de segunda-feira, de um mês que não me recordo mas creio no ano de 1970, quando estava para sair de casa para o Consulado, telefonou-me a Vice-Consul, Condessa Yankovich-Bésan, dizendo-me, num tom algo nervoso, que recebera um telefonema urgente do Governo-Geral de Moçambique convindo que eu fosse rapidamente para o Consulado.
Quando lá cheguei entrei em contacto com o Gabinete do Governador-Geral e fui informado que, sem explicação razoável tinha desaparecido um navio português de cabotagem, Angoche, entre Nacala e Porto Amélia, seu porto de destino. Deveria ter chegado a Porto Amélia no sábado, mas nada se sabia dele.
O assunto não parecia grave, ainda que pouco ou nada usual e, de qualquer modo preocupante. Levava a bordo cerca de 22 tripulantes dos quais três brancos, entre o comandante e dois outros oficiais, sendo o restante da tripulação de raça negra.
A pouco e pouco foi-se sabendo mais, designadamente que o Comandante do Porto de Porto Amélia tinha ido passar o fim de semana, creio que para a caça, razão pela qual só 2 dias depois era dado o aviso de desaparecimento do navio.
Não sabia bem o que fazer, dada a localização do Consulado, longe da costa norte de Moçambique e meios reduzidos de que dispunha. Mas entretanto, e para minha surpresa, recebi um telefonema dos agentes locais dos navios portugueses Infante Dom Henrique, Príncipe Perfeito e outros, e que eram agentes de muito mais navios de diversas nacionalidades, dizendo-me que um petroleiro, Esso Port Dickon, que vinha carregado de crude para Durban, encontrara á deriva, no norte de Moçambique, um navio que julgava português, Angoche. Estava com fogo a bordo, o qual foi extinto pelos homens do petroleiro, mas sem ninguém, isto é sem viva alma. Pelas leis marítimas internacionais o comandante do Esso Port Dickson tomava posse do Angoche e estava a rebocá-lo para Durban.
Assim, e por mero acaso, fui o primeiro a descobrir onde estava o Angoche e em que situação. Apressei-me a comunicar ao Governador-Geral de Moçambique tendo desde logo ficado a pairar um certo espanto pelo sucedido e uma incógnita sobre o que se passou realmente e o porquê. Mas algo se iria descobrir, foi essa a minha convicção.
Entretanto telefonou-me de Lourenço Marques o Representante da C.N.N, Armador do navio, Dr. João Martins Vieira,[que, viria, aliás a Durban para contactar comigo] dizendo-me que, ainda que não constasse no manifesto de carga, o Angoche transportava armas e munições e em grande quantidade. Achei o caso insólito, totalmente irresponsável, e não deixei de dizer desde logo que ia informar o Almirante Comandante da área de Durban, no Bluff, do que acabava de me ser dito, pois a segurança de Durban podia estar em jogo, independentemente da do Esso Port Dickson. Assim fiz com o resultado de ser imediatamente proibida a entrada do Esso Port Dickson desde que com o Angoche a reboque.
Mas começava-se a desenhar as possíveis causas do que acontecera ao navio, permanecendo um mistério o que poderia ter acontecido á tripulação…
O Angoche ficou no porto de Lourenço Marques, onde quase que ali apodreceu, e nunca ninguém mais apareceu. Falou-se em muitas hipóteses, que os tripulantes tinham sido comidos pelos tubarões [cheguei a receber um telefonema do Times de Londres sobre o assunto; lembro-me que respondi que tanto quanto eu podia imaginar, não via os tubarões organizarem-se de tal modo que fizessem um plano para atacar um a um e comer 16 tripulantes, sem deixar vestígios!]. Disse-se que fora um golpe, talvez com a conivência de partes portuguesas simpatizantes dos grupos terroristas, e que os tripulantes teriam ido para a Tanzânia. Mas o certo é que, se assim foi, nunca mais apareceram e os responsáveis nunca foram encontrados e logo punidos. O mistério subsiste.

Tive ocasião de diversificar a minha actividade em Durban quando fui nomeado para chefiar a delegação portuguesa á reunião da S.A.R.T.O.C. [organização regional para cooperação e desenvolvimento do turismo na região da África do Sul] que se realizou nas Maurícias durante cerca de uma semana. Na Delegação portuguesa faziam parte funcionários do turismo e desenvolvimento local de Moçambique, alguns empresários ligados ao turismo da região e, creio, que dois funcionários da Secretaria de Estado do Turismo de Lisboa. Fui recebido pelo Presidente das Maurícias, indiano de ascendência, dado haver uma predominância de indianos de origem na ilha, e pelo mais extravagante Ministro dos Negócios Estrangeiros que jamais encontrei, Gaetan Duval, famoso por ter começado a promover o turismo nas Maurícias com uma visita espectacular da Brigite Bardot, que ficou na memória de todos ao tempo. Fui sempre acompanhado pelo Cônsul de Portugal em Port Louis, que insistia em mostrar bem a bandeira nacional quer no seu carro, quer no seu yacht de grande luxo, que usou para uma recepção ás autoridades mauricianas e ás delegações estrangeiras. A reunião decorreu da melhor maneira e o famoso e exótico Ministro dos Negócios Estrangeiros, Gaetan Duval, atribuiu-me a Ordem de Mérito das Mauricias

A situação na Africa portuguesa era perigosa, confusa e vista de Durban não apresentava futuro promissor. A guerra não se perderia, mas seguramente não se ganharia. As forças combatentes estavam na exaustão física, moral e, até mesmo, material, isto é, as comissões que os oficiais do quadro faziam já não compensavam financeiramente pela inflação que se verificava na metrópole. Por outro lado, as forças armadas não tinham mais espaço para promoções em tempo normal. Com a continuação a pressão de baixo era tal que “o exército [para não falar senão neste caso] terminaria quase todo em…generais”. A mim parecia-me que o interesse das populações na metrópole era cada vez mais afastado de um sentimento de “império”, de um desejo de manter Africa, Ásia e Oceânia. Receava que, por um lado, se desse uma sublevação tipo corporativa – o que para mim aconteceu, e não uma revolução – por outro, uma revolta das massas do continente á distancia de milhares de quilómetros de um terra de guerra que se arrastava e cada vez significava menos para essas pessoas.
Este estado de espírito que era o meu e se foi acentuando enquanto exercia as funções de Cônsul de Portugal em Durban, fez com que tivesse um momento de um certo dissabor que, dada a minha idade de ainda jovem, me levou a ter uma reacção algo desmesurada, que me poderia ter custado caro, mas no fundo serviu para esclarecer muita coisa, sobretudo a minha real posição. Foi que, um dia tive conhecimento de que numa conversa num conhecido hotel da Beira entre o General Kaulza de Arriaga, então Comandante-em-Chefe das forças militares em Moçambique e autor, com sucesso, mesmo reconhecido pela Frelimo, da conhecida operação “ Nó Górdio”, e o influente Engo. Jorge Jardim fora por aquele referido o meu nome, queixando-se de que quer pelas minhas afirmações, quer por relatórios escritos por mim, para a Embaixada em Pretória, M.N.E. e Governador-Geral de Moçambique eu estaria a prejudicar quer o andamento das operações militares, quer mesmo a nossa posição moral sobretudo em Moçambique. É verdade que eu fora de certo modo crítico de certas situações, como por exemplo da permanência em doca seca em Durban, durante cerca de 6 meses, da única fragata que tínhamos na costa oriental, a Pacheco Pereira. O seu Comandante, Vicente de Almeida de Eça e sua mulher chegaram a passar o Natal de 1969 connosco. Vinham engenheiros navais de Lisboa e iam, e tudo ficava na mesma. Eu achava tal facto inadmissível e é verdade que o referi, até porque dava de nós uma péssima imagem mesmo para o Governo Sul-Africano e não só. Possivelmente, e muito naturalmente, devo ter referido também outros aspectos que considerava negativos para a situação em territórios portugueses, se não mesmo uma possível solução para o problema ultramarino/colonial, como aliás advogava, e bem, o próprio Engo Jorge Jardim em relação a Moçambique.
Dado que tinha relações amistosas com ele, uma vez que havia um filho seu a estudar em Durban que eu procurava acompanhar, fui avisado do que o General Kaulza de Arriaga mencionara na Beira sobre mim numa das minhas idas a Lourenço Marques.
Assim escrevi uma carta pessoal ao General [que apesar de tudo eu considerava um paranóico- poderia aqui mencionar o massacre de Wiryamo, mas outros, melhor que eu, o farão –] num tom respeitoso mas contendo elementos esclarecedores e que pretendia usar em minha defesa. E fiz um relatório, com o conhecimento do Engo. Jorge Jardim para o Governador-Geral de Moçambique, Engo Arantes e Oliveira [era amigo do João, sobrinho do Governador, e da mulher Miriam,- acompanhara-a várias vezes quando no Protocolo, em recepções que o pai dava no Forte São Julião da Barra, uma segunda casa para eles durante largos anos- filha do General Gomes de Araújo, Ministro crónico em várias pastas de Salazar] e por isso sentia-me um tanto á vontade para expor o meu caso. Qualquer que fossem as minhas opiniões uma coisa era certa – tudo o que fazia era no cumprimento de uma missão que desse do meu País uma imagem de dignidade, credibilidade e maturidade colectiva e civilizada. Mas não me sentia nada confortável com ser referido por alguém como o General Kaulza de Arriaga, tendo ficado mais descansado quando Marcelo Caetano, creio que a propósito de Wiryamo, e por influência de Jorge Jardim, acabou por tirar a Kaulza de Arriaga o Comando Militar de Moçambique



Na Embaixada de Portugal em Djakarta



Por tudo isto, em Abril de 1973, tendo ido a Lisboa no voo inaugural do Jumbo Jet da South African Airways pedi ao Embaixador Calvet de Magalhães, então Secretário-Geral do M.N.E, meu antigo chefe e manifesto amigo, que me transferisse para um posto em que actuaria autónomo, de preferência longe e com interesse geo-politico. Assim surgiu Djakarta que gozava de um estatuto muito especial, único mesmo – o representante português era formalmente um Cônsul-Geral, mas localmente, e por Lisboa, era tratado como Encarregado de Negócios de uma Embaixada. Fora a maneira que os indonésios encontraram de, não cortando nem prejudicando as relações connosco, dessem formalmente execução ás decisões da famosa Conferência de Adis-Abeba.

Desta forma éramos sempre convidados para as recepções oferecidas pelo Presidente Soeharto e Senhora, aquando de vistas oficiais de Reis e Chefes de Estado estrangeiros á Indonésia. Durante a nossa estadia passaram oficialmente por Djakarta a Rainha Isabel II e marido [foi nessa altura que se deu um atentado á Princesa Ana e marido, Mark Philips, na Mall de Londres; mas também, não sei porque razão foi a minha filha Sofia Frederica a escolhida a dar um ramo de flores á Rainha na Escola Inglesa que frequentava com o irmão – disso ela se lembra]; os Rei da Bégica, Baldwin e Fabiola; Presidente das Filipinas e Imelda Marcos; Presidente de Singapura; Xa da Pérsia e Imperatriz Farah Diba; Reis da Malásia, Sultões de Johore; Gerald Ford, Presidente dos E.U.A.


Xa da Pérsia Muhamed Reza Palhevi
Fotografia autografada oferecida aos Chefes de Missão Diplomática no banquete dado
pelo Presidente Soeharto e Senhora Tina Soeharto, No Palácio Merdeka, Maio de 1974


Recepção a S.M. o Rei da Malásia, Sultão de Johore, no Palácio Merdeka
Rei da Malásia, Sultão de Johore, Embaixatriz da Malásia, Príncipe Herdeiro de Johore
Maria Manuela de Souza Girão e o autor



A minha acção na Missão Diplomática em Djakarta está, segundo creio, bem descrita no longo artigo de Moisés Silva Fernandes, Investigador do Instituto de Ciências Sociais de Lisboa, Membro do Conselho Superior do Instituto Diplomático do Ministério dos Negócios Estrangeiros publicado na Revista daquele Instituto no.10, de Fevereiro de 2007, com o título “A Preponderância dos Factores Exógenos na Rejeição do Plano Português de Descolonização de Timor-Leste, 1974-1975”.

Não conheço o autor, a sua formação nem as suas tendências ou filiação partidárias. Parece-me que está bem escrito, bem documentado, com uma sequência factual inteligível e seguindo uma directriz correcta e não tendenciosa.
Há, porém, certos aspectos em que peca por acção ou por omissão, mas, parece-me, sem ser intencionalmente dirigido tal procedimento.

Começo pelo título – em boa verdade nunca houve um plano de descolonização para Timor ou um plano feito e executado atempadamente; antes ao sabor dos acontecimentos.

Timor foi para os descolonizadores, em especial o M.F.A, uma matéria de difícil solução. Não tinha havido movimento, ou movimentos, emancipacionistas; não houvera uma política de anexação por parte da Indonésia, isto é, uma política oficial, estruturada e manifestada [discordo totalmente de Pinto da França, que aliás esteve em Djakarta num período calmo das nossas relações, sobre a Indonésia ter sempre querido Timor]. Poderia ter havido uns quantos “falcões” que queriam a anexação, mas tanto Sukarno – que esteve em visita oficial em Lisboa, com sucesso, em princípios de sessenta – nem Soeharto este, pelo menos no início do pós-25 de Abril, seguiram os princípios de Bandung – “o Estado colonizado é o herdeiro das fronteiras do Estado colonizador”.

Em termos de território – fronteiras de um Estado, valia em meados do sec. XX a teoria clássica de Stephen B. Jones [1945] segundo a qual as fronteiras geográficas [terrestres e marítimas] são referidas a quatro aspectos primordiais – “allocation”, delimitation”, “demarcartion” e “admnistration”, isto é, área do território, linha de fronteiras, marcação das fronteiras por marcos ou outros sinais de limites e administração das mesmas fronteiras.

No caso em apreço interessa-nos apenas o primeiro aspecto – “allocation” - . Aqui a situação foi tornada clara logo na independência [“Merdeka”em bahasa indonesian] da República da Indonésia. Assim a Indonésia sucedeu, apenas e somente, no território da potência colonial – a Holanda – segundo o principio do “uti posidetis júris”.

Compreender-se-á, pois, o embaraço do M.F.A. Eu próprio, quando me desloquei oficialmente a Timor em Julho de 1974 tive uma entrevista com o Major Arnão Metelo, representante em Dili do M.F.A., [e que, para minha surpresa, vim a saber fazer par, mais tarde, com o meu querido Professor de Finanças de Coimbra e sucessor na cadeira a Salazar, José Joaquim Teixeira Ribeiro como Vice-Primeiro Ministros de Vasco Gonçalves] onde ainda para minha surpresa me expôs a criação da APODETI [que reivindicava a anexação á Indonésia] e do seu manifesto valor e significado para resolver a questão de Timor, etc, etc. A APODETI tornou-se a breve trecho quase fantasma e de aí nada resultou.

Consequentemente, e com o devido respeito para com Moisés S. Fernandes acho, sempre achei, exagerado, precipitado e sem fundamento referir-se uma descolonização de Timor pensada, estruturada e executada em linha de sequência lógica, e mesmo, prática. Foi, no fundo, “uma manta de retalhos com um buraco que se tapava aqui, para logo outro se abrir mais adiante”.

Depois por omissão. Os meus telegramas, que só em 1975 chegaram quase a 200 [muitas Embaixadas de 1ª.classe ficam-se por esse número ou menos] são correctamente referidos, com o mínimo de comentários, é certo, mas que revelam, creio e desculpe-se o auto elogio, uma profunda preocupação de a)- defender o bom nome do Estado Português e os seus interesses como Nação multi-secular; b)- defender, a todo transe, o bem estar, a integridade física, mesmo, das populações de Timor, bem como dos oficiais portugueses que haviam sido feitos prisioneiros e assim estiveram mais de 1 ano [entre eles estava Rui Palma Carlos, meu amigo de anos atrás, sobrinho do Primeiro Ministro pós-25 de Abril, escritor, artista plástico de grande interesse e hoje bem conhecido nos meios artísticos portugueses].

Mas, e aqui está o fundamental de toda esta matéria, não se referem dois documentos :

o primeiro é um telegrama ou oficio [a memória já não me ajuda] que enviei para Lisboa em Fev/Março de 1974. Fora subitamente chamado ao Ministério dos Negócios Estrangeiros indonésio que se chamava de Luar Negri, e assim o tratarei, para ter um encontro formal com o Sub-Director dos Negócios Políticos, que mais tarde foi como Embaixador para Bucareste, onde teria morrido. O assunto era para mim uma surpresa – trocar impressões, saber mais [da parte indonésia] sobre o livro que saira em Lisboa com o título “Portugal e o Futuro” de António Spínola. Eu ainda desconhecia o livro mas não me era difícil aperceber-me do que se tratava, quer pelo título, quer pela personalidade do seu autor e, sobretudo, pelo interesse indonésio.

Tive de ser franco e declarar logo de entrada que o nosso encontro pouco adiantaria para o Luar Negri. Sabia apenas quem era o autor, António Spinola, General, ex-Governadorda Guiné e agora numa posição algo “sui generis” de Sub-Chefe do Estado Maior General das Forças Amadas, cargo que até ai creio não existia. Fora uma
personalidade de relevo aquando Governador e, certamente, continuaria a sê-lo agora em Lisboa.

O tom da conversa era para mim evidente- havia mais do que ansiedade , apreensão mesmo, pelo lado indonésio com o conteúdo do livro, a personalidade do autor e, claro, o que não era difícil de advinhar, o futuro das nossas possessões além-mar, muito em especial Timor. Tanto mais que estava programada para Maio próximo o que seria a primeira visita a Timor portugês de um Ministro dos Negócios Estrangeiros da Indonésia, neste caso, Adam Malik. Seria um facto verdadeiramente único e cheio de significado político, em especial para o nosso lado. Há que compreender que o interlocutor do Governador de Dili era, formal e oficialmente, o Governador de Kupang e nada mais. Só depois do 25 de Abril e graças á prosápia do então Governador Pires [típica, aliás, de muitos dos militares que surgiram então] aquele veio a Djakarta e quis encontrar-se com altas figuras do Governo Central. Percebi que não tinha a noção nenhuma de com estava ou ia lidar e preparei-me para o pior. Na verdade acabou por se encontrar com uma ou duas figuras de segundo plano, com alguns títulos pomposos, mas sem significado no contexto do regime de Djakarta, mas que serviria, uma vez que ele ia a caminho de Lisboa, para dizer ali o que muito bem entendesse mas com pouco ou nenhum valor politico-diplomático. Aliás, e coisa curiosa, Pires foi justamente apanhar sem saber, o 11 de Março [como antes o Governador Aldeia apanhou em Lisboa, também sem saber, o 25 de Abril !] e lá regressou nem sei como e para, num punhado de meses, pôr o território a ferro e fogo. Foi uma figura infeliz para Timor, Sempre lamentei que o Governador interino, Tenente-Coronel Nivio Herdade não quisesse ou não o deixassem ficar no cargo, como substituto do Governador Aldeia, último até ao 25 de Abril.

Nada daquele meu encontro no Luar Negri aparece referido no artigo de Moisés Fernandes. E, no entanto, era um sinal claríssimo de quanta atenção Djakarta prestava ao futuro de Timor e quanta preocupação esse futuro representava para as suas autoridades centrais.

Devo esclarecer que os acontecimentos se precipitaram de tal forma, as comunicações com Lisboa nem sempre eram rápidas em tempos de rotina que, quando já tinha elementos esclarecedores sobre “Portugal e o Futuro” [livro] o futuro de Portugal parece que começava a estar traçado, em especial o das suas possessões.

Ainda em termos de omissão lamento que nada se diga sobre o meu primeiro telegrama pós 25 de Abril para o M.N.E.

O 25 de Abril pareceu-me logo ser acontecimento sério, cheio de repercussões que poderiam ser terríveis para milhares e milhares de pessoas, ou de grande benefício para o País como um todo, ou parcialmente. Era uma incógnita, sobretudo para quem, apesar do que escrevi antes sobre as minhas convicções ultramarinas, estava já a tantos milhares de quilómetros dos acontecimentos. Assim procurei de imediato recolher o maior número de informações sobre o tal acontecimento e o que ele significava, de uma forma fundamentada, para o Governo de Djakarta e sobretudo a sua posição em relação a Timor português.

As minhas conclusões estão naquele telegrama que foi enviado poucos dias depois do 25 de Abril. Nele constam três princípios que considerei, e ainda considero, como as linhas mestras do que poderia ter sido a atitude da Indonésia em relação a Timor, ás sua populações e, claro, a Portugal.

Permita-se-me um parêntesis. As informações que saem de uma Embaixada, Missão Diplomática ou Consulado só têm valor prático e consequências benéficas [ou maléficas!!!] se circularem pelas entidades a que podem vir a dizer respeito, isto é, que as possam aproveitar, usar ou agir em conformidade com as mesmas. Se pararem nos destinatários imediatos como que “morrem”, não produzem todos os seus efeitos, ficam monopolizadas. Assim aquele telegrama devia ser tido na devida consideração não fossem, talvez, os momentos conturbados que os serviços passavam.

No telegrama escrevia-se;

a]- o Governo do Presidente Soeharto não tem qualquer aspiração ou intenção de anexar a parte portuguesa da lha de Timor;

b]- o mesmo Governo segue o principio fundamental da Conferência de Bandung que organizou e apadrinhou, segundo o qual, como se disse, “o país colonial é o herdeiro , e só, do território do país colonizador”, o que significava que a parte Leste de Timor, por ter sido portuguesa, estava fora do território detido pela Holanda.

c]- no entanto e dando toda a enfâse ao referido em a] e b], a Indonésia nunca poderia aceitar que o Leste da ilha de Timor se tornasse num território de instabilidade política ou social, num território de eventual influência de potência hostil á Indonésia e, igualmente, num território caótico.

É difícil encontrar, ou exprimir, princípios mais claros que estes e que vinham, com toda a minha certeza, pelas fontes, de uma reunião urgente na residência e sob a presidência de Soeharto.

Aqui é altura de falar claro – se as autoridades portuguesas, quaisquer que elas tivessem sido [M.F.A., partidos políticos incipientes e inexperientes, figuras que surgiram de dentro e de fora do território nacional] tivessem tido em consideração o que se continha naquele telegrama, seguissem uma linha política, por mais difícil e árdua que fosse, sem interesses internos contraditórios, etc, muito, ou todo, o verdadeiro drama de anos e anos se teria evitado. Mas o que aconteceu é passado, está feito. E o futuro não parece ser promissor quanto a Timor-Leste. Não pretendo, não sou dotado para fazer futurologia. Mas receio que o “povo maubere” , “Timur Lorossai”, os lenços ou cachecois com cores locais não passem de clichés que encubram uma realidade de desunião, de indisciplina e total ou quase desorganização.

Não tinha informações que considerasse fidedignas sobre a possível invasão de Timor pela Indonésia. Sem isso nunca correria o risco de comunicar a Lisboa o que poderia ser, mas poderia também não ser.

Em Setembro de 1975 e após o golpe de estado de Dili que deixou praticamente o território nas mãos da FRETELIN, estava na Embaixada, cerca das 7 da tarde, quando a minha Mulher me chamou dizendo que havia um telefonema do Luar Negri. Fui atender e pediam-me para ir com urgência a casa do Ministro dos Negócios Estrangeiros, á casa particular mesmo, e não ao Ministério. Fiquei confuso e preparado para o que viesse. Mesmo o pior.

Chamei o chaufeur e fomos de carro ao que era a zona residencial dos membros do governo. Na casa do Ministro estavam já uma série de altos dignatarios, para além do próprio Ministro, como o Almirante-Chefe, o Chefe do Estado Maior das Forças Armadas, o General Comandante da Segurança, etc, etc. Sentei-me e o Ministro depois de me pedir desculpa pelo incómodo foi directo ao assuntos e disse- “estão duas fragatas e três navios de carga a 10 horas de Dili. Vão carregados com arroz e outros mantimentos para distribuir pela população timorense. Pedia-me autorização para atracar em Dili, fazer sair todos os mantimentos e distribui-los pela população”.

Vi de imediato quer a intenção, quer o perigo que tal medida acarretava para a soberania portuguesa. Levando tropas e preparando-se os indonésios para distribuir mantimentos in loco num território completamente desgovernado muito natural seria que, havendo certamente confusão, as tropas indonésias resistissem, pusessem ordem e… em resumo tomassem conta de, se não todo o território, uma parte tão grande quanto necessário. Em resumo, poderia ser certamente uma forma de invasão do território “manu militare” ainda que com pretexto humanitário.

Respondi que não tinha poderes para decidir e muito menos para autorizar a continuação da operação. Só com instruções expressas de Lisboa podia dar uma resposta ainda que fosse meu desejo, e obrigação, fazê-lo no mais breve espaço de tempo possível. Assim iria de imediato para a Embaixada, telefonaria para Lisboa pelo que, de uma forma algo irónica, me virei para o General Comandante da Segurança e pedi-lhe a sua colaboração em obter rapidamente a chamada, dando assim a entender “o sistema que vigorava em termos de comunicações das Embaixadas!!!”.

Fiz de imediato a chamada, falei primeiro com o Ministro dos Negócios Estrangeiros, Mário Ruivo, que de seguida fugiu literalmente á responsabilidade e disse-me que me ia passar o Presidente da República, General Costa Gomes. Assim falei com o General, pu-lo ao corrente da situação, que considerava gravíssima e típica de uma mentalidade oriental. Disse-me que regressasse de imediato a casa do Ministro dos Negócios Estrangeiros – estavam á minha espera – e lhes comunicasse que no dia seguinte saia de Lisboa um enviado especial do Presidente, com poderes especiais, Dr. Almeida Santos, que, aliás, já estivera em Djakarta antes como Ministro da Coordenação Interterritorial, e consequentemente nada fizessem agora.

A gravidade da situação era tal que pedi ao Presidente, aceitando eu as suas instruções transmitidas telefonicamente, fizesse o favor de as confirmar urgentemente por escrito em telegrama confidencial. Assim foi feito, mas antes já eu estava em casa do Ministro indonésio a transmitir o que me fora dito pelo mais alto Magistrado da Nação.

Perante uma certa desilusão da parte dos indonésios foi-me garantido que ia ser dada ordem aos navios para pararem e aguardar-se-ia a vinda do emissário especial do Presidente português, para o que o Luar Negri iria tomar desde já as medidas convenientes.


Recepção informal dada pelo Ministro dos Negócios Estrangeiros Adam Malik
por ocasião da entrga das Cartas de Gabinete como Encarregado de Negócios de
Portugal em Djakarta, trazidas de Lisboa pelo Ministro Almeida Santos,
o autor, Dr. Guilherme de Souza Girão, Encarregado de Negócios , Almeida Santos
o Sub-Director Geral dos Negócios Políticos da Indonésia, o Ministro Adam Malik



O Dr. Almeida Santos chegou e marcou-se logo as reuniões. A primeira, presidida no lado indonésio pelo próprio Ministro, correu, pareceu-me, muito bem. De tal maneira que, quando íamos no carro para almoçar na Embaixada eu manifestei a minha satisfação e até, imagine-se !, felicitei o Dr. Almeida Santos pelo seu cuidado na negociação.

Regressámos á tarde e foi o balde de água fria. O ministro não estava já a presidir ao lado indonésio, mas sim a temível Secretária-Geral do Ministério dos Negócios Estrangeiros, conhecida de sobejo pelas suas habilidades e grande aptidão diplomática nas negociações. Conhecida por todos os Embaixadores; temida, mas respeitada, por todos.

A partir de aí foi tudo um fiasco. Era claro que os indonésios consideravam Timor ingovernável, literalmente abandonado por Portugal e consequentemente não estavam mais interessados em negociar. Convenci-me que, a partir de aí, os seus planos eram outros. Estávamos em princípios de Outubro de 1975. Muito possivelmente os “falcões” tinham ganho do lado indonésio e restava esperar.

O Dr. Almeida Santos regressou a Portugal, “de mãos a abanar” e depois foi a vez de Melo Antunes tentar o impossivel- numa reunião em Roma, mais ou menos secreta foi literalmente enganado, ou deixou-se enganar pela” auto-confiança dos MFAs” por parte dos indonésios.

Entretanto em Djakarta eu era chamado á casa do Presidente Suharto onde fui recebido muito afavelmente, certamente para nos tranquilizar enquanto a situação se ia desenvolvendo , mas não a nosso favor, nem dos timorenses.



Cumprimentos ao Presidente Suharto, na sua residência, a título
de Encarregado de Negócios de Portugal em Djakarta
Outubro de 1975


Houve, porém, um facto que aqui deixo relatado. No dia 6 de Dezembro de 1975, sábado, chegou de manhã cedo a Djakarta o Presidente dos E.U.A., Gerard Ford, bem como o Secretário de Estado, H. Kissinger, numa visita de algumas horas, no término de um périplo pelo Sudoeste Asiático. Fui ao aeroporto com todo o Corpo Diplomático – Chefes de Missão – apresentar cumprimentos, como era do uso diplomático em Djakarta. Cumprimentei, no meu lugar, quer o Presidente, quer o Secretário de Estado [que curiosamente poucos meses mais tarde viria a encontrar pessoalmente de uma forma muito mais demorada e totalmente diferente, quando estando eu já em 1976 como Chefe do Protocolo de Estado, em Lisboa, Henry Kissinger veio, a título pessoal e incógnito, ao 2º.casamento do seu amigo Embaixador F. Carlucci, estando eu presente como convidado do Embaixador que, surpreendentemente, fez amizade comigo a qual, aliás, me valeu, entre outras coisas, as facilidades para a escola americana para os meus filhos em Stuttgart, quando para ali fui como Cônsul-Geral].

Mas voltando a Djakarta. A visita de Estado foi muito breve, mas eu sem saber explicar porquê senti um ambiente estranho no aeroporto. Cheguei á Embaixada e disse á minha Mulher que não participaria em mais nada oficial, ao contrário do que acontecera antes com a Rainha Isabel II, o Xá e a Xabanu, Farhad Dibba, da Pérsia, o Rei Baldwin e a Rainha Fabiola da Bélgica, o Rei da Malásia, nessa altura Sultão de Johore, Ferdinando Marcos, Presidente das Filipinas e Imelda Marcos, Margarida II, Rainha da Dinamarca e o Príncipe Henry, etc. Não iria tão pouco ao aeroporto ao fim do dia para as despedidas protocolares.

Depois no dia seguinte, domingo, 7 de Dezembro, passei todo o dia na Embaixada e confesso [pois lembro-me bem desse dia] que estava muito nervoso, aparentemente sem qualquer explicação. Apenas fomos jantar ao Hotel Indonésia.

Enquanto tal, estava a dar-se a invasão de Timor. Com a habilidade própria dos orientais, os indonésios aproveitaram a visita americana para como dar a impressão que a invasão era aprovada, ou pelo menos sancionada, por aquela grande potência. Sempre duvidei de tal e ainda hoje, salvo melhor opinião, continuo a fazê-lo, atribuindo antes a um bem executado plano de diversão ou ilusão politico-diplomática. Se país algum havia que dera, a partir de certa altura, bem cedo, aliás, indicações de não se opôr a uma solução de integração era a Austrália. O seu Embaixador em Djakarta sempre fêz um jogo duplo, com uma atitude junto dos países ocidentais e outra, segundo o seu Primeiro-Ministro, de quem era grande amigo, junto dos indonésios. Agora chora-se e muito as palavras “we are australians” que os jornalistas australianos escreveram na alvenaria da casa onde se refugiaram e foram mortos. Na altura pouco ou nada se disse sobre o assunto por parte das autoridades australianas…

Ainda sobre esta matéria devo confessar que cheguei a fazer algo de muito pouco ortodoxo em diplomacia. Mas se resultasse… ah então seria um grande triunfo para mim e, melhor que isso, para Portugal e sobretudo os timorenses.

Por volta de fins de Setembro cheguei a encontrar-me com o Embaixador da Austrália e, tendo em conta o estado absolutamente caótico em Timor, independentemente de quem era a responsabilidade – de Portugal, como era óbvio – pensando apenas nas pessoas timorenses, julgava que uma das melhores soluções seria a de que a Austrália manifestasse a sua posição e forte interesse na manutenção da separação de Timor da Indonésia. Era o mesmo que dizer ser contrária á anexação de Timor. Ingenuidade minha… O Embaixador, que não era de carreira, mas sim um politico da lai do seu chefe, Primeiro-Ministro, olhou-me manifestamente como nem m idealista, mas um “principiante” e disse-me que embora louvasse e muito todo o meu interesse nas populações teria de referir o assunto a Canberra. É claro que nunca tive resposta e percebi que tudo estava tratado entre a Austrália e a Indonésia. Fiquei, confesso, envergonhado.

Com a diferença de, para mais, 8 horas, só ás 6 da manhã de segunda-feira, dia 8 de Dezembro, tive conhecimento por um telefonema do director da Reuters, meu amigo, que houvera a invasão e o Ministro português do Negócios Estrangeiros, Melo Antunes, havia convocado no domingo cerca da meia-noite o Embaixador indonésio em Lisboa para o informar do corte das relações diplomáticas luso-indonésias, dando-lhe 72 horas para abandonar o território nacional. O Embaixador foi para Madrid.

Creio ser de interesse, para melhor compreensão do que fica escrito acima, citar aqui algumas passagens de um artigo escrito por Fernando Lima, hoje assessor de imprensa da Presidência da Republica e Grão-Mestre da Maçonaria, e publicado no Expresso, de 12 de Abril de 1975, sobre Portugal e a Indonésia, talvez o melhor e mais bem fundamentado que, também sobre Timor, foi escrito entre o 25 de Abril e a invasão de Dezembro de 1975, ilustrado com uma fotografia do “general Ali Murtopo, Chefe do Bakin” e outra de “Adam Malik, Ministro dos Negócios Estrangeiros da Indonésia com o Encarregado de Negócios de Portugal, Dr. Guilherme de Souza Girão”. Deixo para o fim o seu título, por ser uma síntese do conteúdo do todo.

Timor está na ordem do dia e no centro das atenções da Indonésia e da Austrália que não desejam, de forma alguma, que o equilíbrio de forças seja perturbado naquela zona do globo. E a pequena colónia portuguesa de Timor parece meter medo a muita gente”.

Assim começa o artigo:

Timor, um pequeno território com 650.000 habitantes poderá tornar-se incómodo para a Indonésia, constituída por 13.667 ilhas e com uma população avaliada em 120 milhões de pessoas! Este é, pelo menos, o receio de alguns dirigentes indonésios, á frente dos quais se encontra o General Ali Murtopo”. “… os indonésios não se mostram muito convencidos [das boas intenções dos timorenses] e apontam para o programa da FRETELIN, no que diz respeito ao capítulo das relações internacionais, onde se defende uma politica de não-alinhamento. Com efeito Djakarta vê nisso um convite aberto á China e União Soviética para estabelecer uma substancial influência e presença no pequeno território português”.

Tudo isto põe um problema muito concreto e crucial para os indonésios: a segurança. E também, se Timor optar, entretanto, pela independência, o Governo indonésio receia que essa decisão possa provocar, paralelamente, descontentamento nos territórios que administra. Diz-se, inclusivamente, em Djakarta que a outra parte de Timor que está sob o domínio indonésio poderia unir-se ao Timor português. De aí o desejo do General Ali Murtopo de que Timor se torne na 27ª provincia da Indonésia o mais depressa possível. Aliás Murtopo e alguns outros têm sido, segundo os observadores politicos os homens que têm estado por detrás de todo o clima de especulação que se criou á volta do caso de Timor.”E o artigo continua “no entanto Murtopo não conseguiu, até esta data, convencer o General Soeharto com a sua visão do problema de Timor.

Para o Presidente indonésio o mundo está dividido por regiões e se cada uma delas velar pela paz na sua área, será possível criar um ambiente de desanuviamento e estabilidade, Portanto até lhe demonstrarem o contrário o Presidente Suharto não deixará de defender a estabilidade na região, pensam os observadores. Embora as mesmas fontes refiram que o seu ponto de vista é que Timor independente poderá constituir um factor de desequilíbrio nas questões da área, como não ignora ainda que a sua teoria regionalista [com base na ASEAN] tem tido bom acolhimento na Austrália”.

Em seguida o artigo refere que “ todavia a integração de Timor na Indonésia não deixaria de levantar problemas não menos graves. Isto porque, sendo a Constituição indonésia a de um Estado Unitário, dificilmente seriam concedidos privilégios áquele território. “ Assim que, em entrevista ao mesmo jornalista, Adam Malik diz” se Timor decidisse integrar-se na Indonésia, teríamos de aceitar, discutindo, no entanto uma maneira própria para incorporar os desejos desse povo sem alterar a nossa Constituição. Não pretendemos alterar a Constituição” [o sublinhado é meu]. Referindo-se também ao Governador de Timor, continua “ consultas não só com os partidos existentes em Timor, mas com as autoridades indonésias têm sido feitas pelo Coronel Pires. Na sua última passagem por Djakarta o Governador disse, nomeadamente aos jornalistas “não vejo razões para um ataque militar da Indonésia ao território português como foi recentemente relatado pela imprensa”. O Coronel Pires, que garantiu que o processo de descolonização de Timor seria conduzido com honestidade, sublinhou noutro passo das suas declarações,” que muitas coisas dependeriam dos partidos políticos existentes naquela colónia. Com efeito o problema poderia ser resolvido facilmente se houvesse somente uma opinião”. [aqui observo –lá se vão os princípios de pluralidade democrática tão apregoados pelos novos senhores de Portugal !!!].

Sobre o 11 de Março o artigo realça “sempre a não perder uma oportunidade para fazer ressaltar o seu pessimismo sobre o futuro de Timor, os acontecimentos decorrentes do 11 de Março em Lisboa têm merecido á imprensa de Djakarta alguns comentários derrotistas. Segundo as suas opiniões, aquele território português sofrerá reflexos da viragem verificada, para o que pedem a maior atenção do Governo da Indonésia.

O mais duro nas sua observações foi o “Indonesian Observer” que fez coincidir a publicação de um editorial sob o título “o 11 de Março e o Timor Português” com a passagem por Djakarta do Coronel Pires , a caminho de Dili, depois de ter permanecido cerca de 15 dias em Lisboa, em conversações com o Governo Central. Como não está praticamente decidido o momento do termo da descolonização de Timor, aquele jornal afirma que “com a nova evolução em Portugal é muito importante para a Indonésia seguir de perto a situação no Timor Português”.”

De sublinhar ainda uma passagem da entrevista com Malik. Disse o Ministro “se quisesse-mos empregar forças militares não seriam precisos exercícios. Por esta razão nego qualquer tentativa de invasão. Como todos sabem a Indonésia recusou-se a reclamar aquele território [é a referência ao principio de Bandung]. Por isso não pensamos tomar qualquer acção especial contra Timor””.

Fica-nos uma parte importante - a Austrália. Aqui Fernando Lima, de Sydney, escreve “com algum atraso os australianos descobriram que o seu vizinho Timor, conquanto seja um minúsculo território, poderia tornar-se num caso delicado e prejudicar a estabilidade politica nas proximidades. Apesar de não ignorarem o problema do futuro de Timor vinham revelando, até há cerca de dois meses, uma certa indiferença sobre o assunto. Mas tal mudou e para o efeito talvez tenha contribuído o encontro de Whitlam [Primeiro-Ministro da Austrála] com o Presidente Suharto. De acordo com a opinião manifestada na altura pelo Primeiro-Ministro a Austrália não punha objecções á incorporação de Timor na Indonésia, se essa fosse a escolha do povo timorense. De excelentes relações com o seu vizinho australiano, Djakarta sentiu, imediatamente, que não seria por esse lado que lhe surgiriam problemas . Nada melhor do que deixar evoluir os acontecimentos.” [ até porque, e sou eu a acrescentar, nada se disse sobre a forma de expressão do “querer” timorense ! Mais tarde os indonésios diriam que foi “por apelo da população face ao caos instaurado no território”] Aliás, ainda Fernando Lima esclarece no seu artigo que “as declarações australianas vieram a publico quando o Ministro dos Negócios Estrangeiros indonésio, Adam Malik, afirmava, também publicamente, que a situação de Timor em nada estava de acordo com a linha da politica de descolonização de Lisboa e que o seu país não toleraria que ela se degradasse até a uma fase perigosa”.

Aqui se regista um testemunho insuspeito de um jornalista português de um conceituado semanário, certamente o mais conceituado á época.

Acrescentamos uma carta escrita por Adam Malik a Ramos Horta, de 17 de Junho de 1974, que é auto-esclarecedora e, curiosamente, pouco se afasta do conteúdo do meu primeiro telegrama pós-25 de Abril, acima referido, não contendo, como óbvio, a referência á atitude da Indonésia no caso de caos em Timor português ou independente…, incluída no mencionado artigo; de notar que esta carta não me parece ter nunca sido mencionada em qualquer obra sobre a matéria de Timor, e, certamente, pertence quer aos arquivos do Luar Negri, quer ao espólio de Adam Malik ou a Ramos Horta que, na altura, teria facilitado cópia da mesma ao jornalista português. Confesso que dela nunca tinha tido antes conhecimento, nem mesmo quando, creio que em Julho de 1974, recebi na Embaixada em Djakarta, a seu pedido, Ramos Horta, que nessa altura era jovem, muito jovem, algo desorganizado na sua apresentação e escondendo, mal muito mal, uma feição mais ou menos revolucionária, tipo Che Guevarra! A nossa conversa, nessa altura, foi inconclusiva, nada de concreto me apresentou sobre planos da Fretelin, ou do que viria a ser a Fretelin, sobre o futuro de Timor e, confesso, fiquei com muito má impressão dele. Mais tarde vim a saber de fonte seguríssima que instigou os motins em Dili de Agosto de 1975 e foi responsável directo pela morte de figuras proeminentes e outras, simples filiados ou simpatizantes, da UDT. Seria uma das últimas pessoas da Terra que eu esperava vir a receber o Prémio Nobel da Paz, ainda que juntamente com o Bispo Belo, o qual, verdade se diga de uma vez por todas, nunca escondeu, antes durante e depois da cerimónia, em Oslo, quanto de constrangimento sentia, certamente por ser parceiro de Ramos Horta em tal ocasião tão significativa, acrescente-se, nos dois sentidos opostos do valor do prémio – o bom, e o mau , leia-se, o genuíno e o tendencioso.




Para concluir, e como prometido, aqui se indica o título do artigo de Fernando Lima



Timor assusta a Indonésia e a Austrália



Mas uma nota só mais para definir, quando visto de Djakarta, o que seria o estado de espírito, preparação e conhecimentos em geral dos que estavam encarregados das difíceis missões da descolonização. Por Djakarta passaram várias personalidades, militares e civis, altos responsáveis pela politica pós-25 de Abril. Com todos contactei e tive oportunidade de apreciar o seu grau de preparação politica, diplomática e internacional. Mas lembro-me bem de um encontro em particular, pouco tempo após o 25 de Abril com um membro do Conselho da Revolução, Major Vítor Alves. Ia a caminho de Dili, parara no aeroporto de Djakarta e eu fora recebê-lo e estar com ele durante o compasso de espera entre dois aviões. Passeando na sala dos V.I.P.S a certa altura ele disse-me “ não compreendo, mas cada vez que saio de Portugal vejo que o marco alemão está mais caro…”Fiquei estupefacto, mas não resisti a dizer-lhe que ele punha o assunto ao contrário, e por boas e fortes razões. Não era o marco que estava mais caro, era o escudo que estava a depreciar-se seguindo uma linha descendente na cotação internacional das moedas !!! Assim estavam os nossos responsáveis….

Por outro lado, e aquando do caos em Timor, em Agosto de 1975, com a entrega pura e simples da chave do paiol das munições á Fretelin, a morte trágica do Tenente-Coronel Maggiolo Gouveia, Chefe da Policia de Dili, entendi prestar o máximo de assistência possível, a partir de Djakarta ás populações timorenses. Certamente quem iria sofrer mais seria desde logo a comunidade chinesa, cerca de 15.000 pessoas, com dupla nacionalidade, mas sem representação consular que os protegesse. Perdidos ou destruídos a maior parte dos arquivos locais, restava-lhes alguns documentos comprovativos de residência. Assim, e pese a verdade, sem o aval de Lisboa, decidi mandar passaportes a grande número dessas pessoas. Foi lá o Vice-Consul e estabeleceu-se uma cadeia de contacto tão eficaz quanto possível. Foi possível salvar muitas pessoas e eu vim anos mais tarde a sofrer terrivelmente com tais actos, num sistema judicial altamente influenciado pela ideologia proto-comunista!!!

Depois, ao longo dos anos, continuei o trabalho de pesquisa genealógica, com alguns intervalos pela distância geográfica a que me encontrava e as muitas peripécias [que referi] por que passei. Com o corte súbito das relações diplomáticas luso-indonésias, em virtude da invasão de Timor português, e a minha saída á pressa, em 72 horas, da Embaixada de Portugal na Indonésia, [mas bem diferente da fuga intempestiva e desordenada do Governador português do território, Lemos Pires, alguns meses antes, para a ilhota de Atauro, á espera de ser salvo pelos australianos, depois de voluntariamente ter causado literalmente o caos no território, tão martirizado, mais tarde, por tais acções irresponsáveis]. E permita-se que, sem relutância, aqui escreva que conhecendo como conheci a Indonésia, os seus governantes e políticos, sempre me surpreendeu que, consumada a anexação, não tivessem a habilidade e o discernimento de conquistar as populações pelo progresso, desenvolvimento e bem estar, nunca usando nem a força, nem a violência física ou psicológica. Se o tivessem feito certamente que se teriam evitado tantas catástrofes, morticínios, e, só o futuro o poderá dizer, a criação, “tout court”, de um Estado que poderá não ser viável, como infelizmente já faz prever o caos que ali tem reinado e os seus fracos e muito débeis recursos humanos e materiais – estes últimos poderão até existir, mas sem os primeiros, de que valerão para um Estado que se quer independente?… quase perdia tudo que já fizera e, mesmo, muito do material original que tinha.

Devo ao então Ministro dos Negócios Estrangeiros indonésio, Adam Malik, o ter tido a possibilidade de, em tão curto espaço de tempo e nas condições precárias locais, preservar tudo quanto era pessoal, e era muito, após quase 3 anos de serviço na Embaixada em Djakarta, ao mesmo tempo que, por não concordar, de todo, com a decisão do Ministro português dos Negócios Estrangeiros, Melo Antunes, que entregara a representação dos nossos interesses á Holanda, a nossa tradicional inimiga naquela área, ter passado quase todo o pouco tempo de que dispunha a destruir todo o arquivo, de quase uma centena de anos, da Embaixada - antes Consulado Geral - para que não caísse justamente nas mãos dos representantes diplomáticos holandeses [deixei a Embaixada de que fora Chefe só com o mobiliário !!!]

A este propósito lembro aqui que tive o grande privilégio de ter contactado, mais no segundo caso que no primeiro, pela natureza das minhas funções, com o que foram certamente os mais hábeis, inteligentes e competentes Ministros dos Negócios Estrangeiros do Terceiro Mundo no sec. XX, Balafreje, de Marrocos, [o”andaluz”, pelo orgulho que a sua família tinha de ter vindo, como grandes que foram então, dos Reinos de Córdova e Múrcia, de regresso ás suas origens, mas mantendo, ao longo de séculos, o”panhache” e delicadeza de trato, apanágio ainda hoje dos Senhores daquelas regiões da Andaluzia – ainda que correndo o risco de divagar um tanto em matérias que, pela sua importância actual e, certamente, futura quer no imediato quer no mediato, parece-me oportuno acentuar aqui a expressão “andaluz” e o que ela veio a representar no presente na fase do fundamentalismo árabe em que vivemos e de que sofremos.

Ao tempo em que era usada para o Ministro dos Negócios Estrangeiros de Marrocos tinha um significado mais ou menos “elitista”, aristocrático, mesmo, na sociedade magrebina. Era assim visto e era assim vivido – um misto de nostalgia de um passado grandioso, mas muito distante, com orgulho, mas sem arrogância, por se ser a continuação actual desse mesmo passado.

Hoje é visto como reivindicação de algo que foi perdido, isto é, o fundamentalismo árabe considera-se como “andaluz” e, assim, devendo recuperar o que considera parte de um seu império de que foi então despojado. Visão fantástica mas que serve para intoxicar mentes mais ou menos vulneráveis e, por sua vez, fragilizar países e sociedades, em especial da Ibéria, que podem ser objecto de actos terroristas tão praticados justamente por aquele fundamentalismo islâmico] e Adam Malik, da Indonésia. Ambos marcaram de forma notável e subtil a diplomacia mundial no seu tempo – Adam Malik uma presença fundamental na célebre Conferência de Bandung, berço do movimento do Terceiro Mundo, e depois com a sua múltipla presença nas Nações Unidas, designadamente na sua Assembleia Geral, e foram para Portugal, nos tempos difíceis da sua política internacional, de uma cooperação inteligente e grande sensibilidade humana.

A nossa saída de Djakarta, ainda que oficiosa e não propriamente oficial [o que foi oficial foi a entrega que me foi feita pela Embaixatriz Secretária Geral do Luar Negri da nota diplomática a comunicar-me que, tendo o Embaixador da Indonésia em Lisboa , Meng Reng Say, sido informado pelo Ministro dos Negócios Estrangeiros, Melo Antunes, de que Portugal cortava, a partir das 0 horas de 8 de Dezembro , as relações diplomáticas com a República da Indonésia, em consequência da invasão militar indonésia de Timor Leste [ou em bahasa, Timur-Timur], devendo o Embaixador sair de Portugal no prazo de 72 horas, e segundo as normas diplomáticas internacionais, eu deveria abandonar a Indonésia num prazo de 72 horas a contar do dia e hora da entrega da referida nota ] foi rodeada de uma certa cerimónia, quer no seu próprio conteúdo, quer pelas pessoas que estiveram presentes e os documentos assinados e trocados entre as partes.

Primeiro e logo pelas 8.30 da manhã de 12 de Dezembro procedeu-se á entrega da Chancelaria. Eu tinha conseguido quando cheguei a Djakarta instalar a Chancelaria no 23º.andar do então mais prestigiado edifício da cidade, o Nusantara Building, situado em frente ao Hotel Indonésia e da enorme Embaixada da Austrália na famosa, pelo seu aglomerado de tráfego, Jalan Thamarin, construído pelos japoneses como compensação pela ocupação militar que fizeram durante a II Guerra Mundial e, felizmente, mantido e administrado por uma muito eficiente equipa de japoneses, tendo aí trabalhado até a esse dia 12 de Dezembro.

Entreguei a Chancelaria, só com os móveis e objectos de uso comum, ao Ministro Conselheiro da Holanda, estando presentes outros membros da mesma Embaixada, o Embaixador Chefe do Protocolo de Estado indonésio, bem como outros membros do Luar Negri. Todos assinaram os respectivos documentos de transferência da Chancelaria para os cuidados da Embaixada da Holanda. Do nosso lado estavam também o Cônsul Residente, Sr. Rodrigues, e os funcionários administrativos todos eles, em número de 6, de nacionalidade indonésia.

Em seguida fomos para a Residência, uma casa de estilo colonial holandês na área de Menteng, o centro da maior parte das Embaixadas, na Jalan [Rua ] Tjokroaminoto, estando, aliás, muito perto da residência do Presidente General Soeharto. Era propriedade do Estado português pois fora adquirida [eu diria antes mais propriamente por “extorsão”] pelo primeiro Ministro de Portugal em Djakarta, Potier, em meados dos anos 50, a um aflito nacional holandês que, como vi pelos documentos de então, vendia a casa em desespero de causa, pois o que queria era conseguir, na altura, alguns fundos e ir para Amsterdão. Não apreciei nada de nada o que vi escrito por aquele Ministro de Portugal regozijando-se com a situação do proprietário, forçando-o ainda mais a baixar o preço para fazer um bom negócio para o Estado português, não olhando á situação do infeliz “retornado” [assim se viriam a chamar dezenas de anos depois a muitos portugueses em situações semelhantes !!!]. Terá o dito Ministro sido apreciado pelos serviços do M..E. em Lisboa ? Nunca cheguei a saber. Após este seguiu-se o Embaixador Leite Cruz, pai de outro Leite Cruz, meu contemporâneo ainda que mais velho, tendo sido o pai o último Embaixador português em Djakarta até á situação “sui generis” que referi, após a Conferência de Adis-Abeba ; a casa manteve-se e ainda existe remodelada nos princípios do sec. XXI.

Na Residência a cerimónia foi de mais pompa. Quando cheguei já estava pronta minha Mulher e filhos. Presentes á assinatura dos documentos respectivos de transferência da Residência o Embaixador da Holanda, todos os que tinham estado na Chancelaria, alguns amigos nossos como o Embaixador de Espanha, Victor Sanchez Mesas e sua mulher Sofia, de uma grande família titular de Zafra, o Embaixaor da Turquia, Semih Baran, com quem tinha feito grande amizade, e sua mulher, a muito snob japonesa Yoko, filha dos antigos Marqueses Mahenda, quando os títulos eram admitidos no Japão, como não deixava de salientar, o Embaixador da Argentina, Solar del Rego, o do Brasil, o de França, Conde Pierre de St. Marc e outros amigos locais estrangeiros e indonésios.

Estiveram, também, como não podia deixar de ser os nossos 12 criados. A despedida deles foi com grande emoção, em especial a do chefe deles, Guiman, que estivera na Embaixada cerca de 30 anos, e a de sua sogra, a muito amiga Ostenia, cozinheira principal, a quem, pela sua muita idade, eu tratei sempre com o cerimonioso “ibu”, o que ela mito apreciava, bem como todos os outros que nos serviram da melhor maneira. De momento não me apercebi de nada mais se não do facto de que todos estávamos muito tristes, muito emocionados como que havendo uma separação de pessoas amigas que conviveram diariamente durante quase três anos.

Mais tarde, á saída ou já no aeroporto, ouvi amigos referir que os diplomatas indonésios presentes ficaram surpreendidos com a reacção nossa e, sobretudo, a dos empregados. Ainda imbuídos de um preconceito anti-colonialista esperavam certamente que houvesse uma indiferença da parte daqueles últimos em relação á nossa saída e não uma manifestação nítida e evidente de tristeza pela separação.

Chegámos ao aeroporto ainda no meu carro, um Buick Park Avenue, com a bandeira portuguesa como sempre usara durante a minha estadia em Djakarta, por especial deferência do Ministro Adam Malik. E tivemos despedidas de todos os que nos acompanharam, na sala dos V.I.P.

Assim saímos de Djakarta para Singapura com destino a Lisboa.

Em Lisboa, onde cheguei com a família nas vésperas do Natal de 1975, apresentei-me no Ministério dos Negócios Estrangeiros, designadamente ao Secretário Geral, Embaixador Tomas Andersen, meu amigo de longa data, e fui para a casa que tínhamos no Estoril, aguardando as decisões do Ministério.

Eu havia chegado numa situação pouco confortável já que tínhamos saído de Djakarta com uma humilhação que significava a invasão de Timor, ainda que se quisesse fazer figura de fortes com o corte das relações diplomáticas com a Indonésia. Era o mínimo… Pela segunda vez tinhamos um território invadido por uma potência estrangeira, ainda que em condições bem diferentes – em Goa fora uma capitulação imposta pela disparidade das armas e a teimosia de ambas as partes personificada numa incompatibilidade aberrante entre dois estadistas – Nerhu e Salazar. Em Timor fora a concretização inevitável da ausência de uma política capaz de descolonização, do abandono do poder no território que conduzira a um caos intolerável á potência invasora e com a fuga do Governador, mais as reduzissimas forças portuguesas que ainda permaneciam no território, mas agora por decisão unilateral nossa, para uma pequena ilhota de Atauro, á espera que os australianos os fossem salvar. Quem me deu a noticia, pelo telefone, foi o Coronel Garcia Leandro, então Governador de Macau [hoje General]. Disse-me que o Governador tinha saído de Dili e eu logo lhe perguntei se para as montanhas, como era usual aquando, por exemplo, da invasão japonesa. Mas não. Foi para Atauro.

[Houve um incidente no mínimo picaresco durante a minha estadia em Djakarta que não posso deixar de mencionar. No decurso de 1974 recebi na Embaixada um telefonema de um chinês residente em Djakarta que se dizia representante de “S.A.R. o Príncipe da Beira”. Estava em Djakarta, creio que no Hotel Indonésia, e dizia-me para ir cumprimentá-lo. Respondi que sendo eu o represente máximo de Portugal na Indonésia e não tendo recebido quaisquer instruções do M.N.E. de Lisboa sobre o assunto, deveria ser a pessoa em questão a deslocar-se á Embaixada , ela sim, a apresentar-me cumprimentos.

O assunto ficou por aí, mas a seguir fui de novo contactado pela mesma pessoa dizendo-me que, vindo o “Príncipe da Beira” em representação do “Duque de Bragança” eu deveria organizar encontros daquele com altas personalidades indonésias. A minha resposta, por falta de instruções adequadas, foi de novo não e nunca mais pensei no assunto.

Para meu espanto dias depois vi no Jakarta Post uma fotografia nas páginas interiores do “Príncipe da Beira” a ser recebido pelo Sultão de Jogjakarta, que era então o Vice-Presidente da Indonésia. Uma figura simbólica, totalmente honorifica, sem qualquer significado ou valor politico. Então estava o Sultão de camisa de batik e gorro de veludo preto e o hóspede de casaca, colete branco e laço branco [num calor tremendo] a entregar – imagine-se? – ao Sultão uma garrafa de vinho do Porto! Espantoso, uma garrafa de vinho do Porto a um fervoroso seguidor do Islão!!! Salva-se a falta de experiência resultante da juventude do que queria homenagear].


Chefe do Protocolo de Estado a.i.

Assim permaneci, chamado em serviço, durante três meses, um tanto inquieto com o que se iria passar, mas seguro que tudo fizera para que a situação de Timor fosse a melhor para Portugal e os timorenses. Ocupava-me da família, sobretudo dos meus filhos que estavam muito bem no St Julian School em Carcavelos, com amigos comuns de antes ou cuja amizade fizeram entretanto. Os contactos com o Ministério eram poucos, a não ser ter, entretanto, sido promovido, o que já poderia querer significar algo de bom, pelo menos de certos quadrantes do Ministério.

Foi então que no dia 1 de Abril de 1976 fui chamado subitamente ao Gabinete do Secretário Geral que, para minha surpresa e confesso grande espanto, me comunicou que ia ocupar o cargo de Chefe do Protocolo de Estado a.i., e desde já. Eu tivera bastante experiência no Protocolo, como refiro adiante, mas estava longe de vir a ocupar, em pleno, um cargo daquele tipo, que no “antigamente” [palavra maldita para alguns] era próprio de um Embaixador em fim de carreira!



Entrega da Grã Cruz da Ordem de Cristo pelo
Ministro dos Negócios Estrangeiros Melo Antunes
ao Embaixador de Espanha
Senhora de Melo Antunes, Embaixador de Espanha,
Ministro, Embaixatriz de Espanha e
autor, Chefe do Protocolo
Palácio das Necessidades, Abril 1976

Discurso do Embaixador de Espanha
o autor, Ministro e Embaixatriz de
Espanha







Condecoração da Grã Cruz da Ordem de Cristo ao Núncio Apostólico cessante,
Cardeal Giusppe Maria Sensi [1967-1976]
entregue no Palácio das Necessidades pelo Ministro Melo Antunes
Cardeal Sensi, o autor, Ministro Melo Antunes,Vera Fernandes, Secretária do Protocolo



Cumprimentos apresentados na Nunciatura Apostólica ao novo Núncio e
Decano do Corpo Diplomático, por inerência, Monsenhor Ângelo Felici,
antes da apresentação das credenciais ao Presidente Ramalho Eanes
Nunciatura Apostólica, Junho de 1976



Cumprimentos trocados na Embaixada de Espanha com o novo Embaixador de Espanha
Fernando Porrero de Chévarri, após as suas credenciais no Palácio de Belém
Junho de 1976


Ainda que mais adiante refira certos aspectos desta parte da minha carreira, devo desde já dizer que, durante os primeiros meses de 1976, não estivera profissionalmente tão inactivo como isso Não por minha iniciativa, devo dizer. Assim fui convidado para me encontrar com o Prof. Freitas do Amaral, com quem almocei. Depois cheguei a ir a sua casa, um grande andar na Alameda, acima do antigo cinema Império, para conversar sobre a situação politica que se vivia em Portugal, sobretudo as suas repercussões a nível estrangeiro [por razões óbvias, e não tendo prévio contacto com aquele Prof., não irei pormenorizar o que se referiu; apenas direi que não estando habituado a tratar com Partidos Politicos como eram, nessa altura os portugueses - salvo talvez, o comunista - muito me surpreendeu a forma como se desenrolaram as duas conversas ]. É certo que o Prof. mostrou-se muito interessado em ser informado do que se passara em Timor. Como nunca foi minha intenção pertencer a partido nenhum, mas sim manter-me, sempre que me fosse consentido e possível, como funcionário de carreira, não mais voltei a encontrar o que era já Chefe, ou pelo menos alto dirigente do C.D.S. Mas por outro lado, e através do Patrício Gouveia, que conhecia há anos e com tinha uma boa relação, muito me tendo custado a sua morte tão dramática, também me encontrei, não por minha iniciativa, note-se, com o Dr. Sá Carneiro. Desta vez foi num almoço por alturas de Março, no Pub, na Rua Duque de Palmela que ele frequentava. Tendo conhecimento da existência já de um Partido Socialista – eu fora sempre colega e grande amigo sobretudo do Carlos Manuel Candal, quer no liceu, quer na Faculdade, e, assim, estava a par do que se passava naquele campo [recordo as horas e horas que passei com ele em Coimbra numa noite de Maio de 1960, em que eu procurava, mas sem sucesso, levá-lo a não se candidatar á presidência da Associação Académica, a seguir ao José Manuel Cardoso da Costa; era a lista B a querer suceder á lista A, isto é, a esquerda á direita, assim se dizia, pois era minha firme convicção que o Candal não era politico, mas gostava, sim, do protagonismo, podendo vir a ser, no fundo, utilizado pelo seu carisma académico e boémio, e isso na altura podia pagar-se caro…] não compreendi, da conversa com o Dr. Sá Carneiro o que o levava a advogar a social-democracia. Lembro-me que cheguei a dizer-lhe que, num país como o nosso, sem grande experiência político-partidária, corria o risco de, com o Partido Socialista já existente, baralhar ou confundir as pessoas. Aceitava que, no momento, uma posição mais de direita poderia ser mal vista ou ser considerada saudosista ou elitista. Mas as confusões nunca deram frutos e mais tarde ou mais cedo os campos tinham que se definir. E dei-lhe o exemplo claro da Inglaterra, que bem conhecia porque sempre me interessara, onde havia dois partidos bem definidos e um terceiro, os Liberais Democratas, que não “descolavam”[ longe iam os tempos em que Churchill decidira ser membro dos Liberais, para depois “atravessar a barreira”, “crossing the floor” e voltar aos conservadores até ao fim da vida]. Em síntese, é do que me lembro da nossa conversa. E não deixei de reafirmar que não desejava filiação partidária. Não mais nos encontrámos a sós, salvo depois em ocasiões formais ou protocolares.

Comecei a minha actividade de Chefe do Protocolo por me instalar no que fora o gabinete de S.M. o Rei D. Carlos I. É sumptuoso, pelo menos era sumptuoso para mim.

Lembro-me de me terem mostrado numa das molduras dos enormes espelhos do gabinete os buracos das balas com que um dos navios de guerra, a partir do Tejo, atingiu o Palácio das Necessidades aquando do 5 de Outubro.

Ali fui recebendo os vários Embaixadores e Encarregados de Negócios acreditados em Lisboa, que vinham apresentar cumprimentos. Mas também, para grande júbilo e emoção da minha parte o meu antigo Chefe, Embaixador José Luís Archer, que vinha obter um novo passaporte diplomático Foi um dos momentos mais significativos da minha carreira, sobretudo peque só o vi uma vez mais na sua casa das Varandas, em Cascais, já que faleceu poucos anos depois de ter estado comigo.

Preparei a viagem oficial do Primeiro-Ministro, Almirante Pinheiro de Azevedo a Viena, a aprovação e juramento da nova Constituição, este pelo Presidente da Republica, Costa Gomes, em sessão solene na Assembleia da Republica, e a apresentação de credenciais, no Palácio de Belém, de alguns novos Embaixadores que vinham chegando.

A cerimónia mais importante que organizei, aliás com a muito boa colaboração dos meus funcionários, Silveira de Carvalho, António Valente, Vera Fernandes, Miguel Sanches de Baena, e outros, foi sem dúvida a tomada de posse de Ramalho Eanes como Presidente da Republica, uma vez mais na Assembleia da Republica e, sobretudo, os cumprimentos do Corpo Diplomático. Havia que resolver primeiro a questão do Decano do Corpo Diplomático, que, por tradição e protocolo pertencia sempre ao Núncio Apostólico, independentemente do tempo de serviço em Lisboa. Assim havia que preparar e realizar rapidamente a apresentação de credenciais do novo Núncio – já que não havia nenhum desde há poucos meses – de forma a que fosse ele então o Decano. Assim se fez, e foi o primeiro acto oficial de Ramalho Eanes como Presidente da Republica.

Em seguida teve lugar os cumprimentos do Corpo Diplomático. Tudo se passou no Palácio da Ajuda, primeiro com a grande escadaria que dava a três grandes salões, um após outro. No segundo estavam o Presidente, Mulher, Membros do Governo, altos funcionários do M.N.E. Os meus funcionários encarregavam-se de encaminhar, por precedência protocolar os Chefes de Missão, que depois se aproximavam do Presidente.



Apresentação de cumprimentos do Corpo Diplomático acreditado em Lisboa
por ocasião da tomada de posse como Presidente da Republica do General Eanes [discursa o Presidente na presença do Núncio Apostólico Decano do Corpo Diplomático
do Ministro dos Negóciuos Estrangeiros e Mulher, do Secretário de Estado dos N.E. e
Mulher, do Secretário Geral do Ministério dos Negócios Estrangeiros, Tomas Andersen,
de Pereira Coutinho, Secretário da Presidência, do General Garcia dos Santos,
e, entre outros, do autor, Chefe do Protocolo e Mulher]
Palácio Real da Ajuda, Junho de 1976



Era minha função, além de supervisionar tudo o que se passava, ir apresentando um por um os ditos Chefes de Missão. Eles eram mais, muito mais de cem e eu vi-me em sérias dificuldades para não cometer nenhum erro, tendo que memorizar os nomes e países que representavam. Com os residentes não era tão difícil, pois já os conhecia a todos. O pior era os que, estando acreditados em Portugal, residiam em Paris, Roma ou outra capital [nunca Madrid, pois não aceitávamos Embaixadores acreditados em Lisboa, mas com residência em Madrid – questão velha histórica! ] . A tais tinha visto uma vez quando me vieram cumprimentar ao Palácio das Necessidades.

Assim aconteceu um pequeno incidente que, aliás, revelou pela primeira e única vez, um pouco do sentido de humor de Ramalho Eanes. Via vir um senhor baixo, moreno, entroncado e por mais que recorresse á minha memória não dava com o nome da pessoa e país que representava. Assim, em desespero de causa, abalancei-me e disse”S.Exa o Embaixador de S.M. Imperial o Xainxha do Irão”. Mal acabara de dizer tal frase infeliz o dito Embaixador dirige-se ao Presidente e diz “em nome do Presidente da Republica

Democrática Popular e Socialista da Checoslováquia, etc,etc”. Fiquei branco, mas Eanes, sem sorrir, voltou-se para mim e disse “Senhor Chefe do Protocolo desconhecia que tivesse havido uma revolução monárquica na Checoslováquia”. E foi tudo que lhe ouvi semelhante a uma pequena graça…

O terceiro salão estava reservado para os discursos quer do Decano, quer do Presidente da Republica e uma saúde com um bom vinho do Porto e alguns aperitivos.

Certamente, o momento mais extraordinário que tive como Chefe do Protocolo foi o seguinte:

Em Maio de 1976 recebi um telefonema, no meu Gabinete, do Embaixador dos E.U.A. , Carlucci [uso aqui o apelido italiano, ainda que o próprio não gostasse que usássemos a forma italiana, na parte sónica, do nome] a convidar-me para almoçar na Embaixada. Seria para de aí a três dias e estava no estafeta o convite formal. É claro que aceitei com prazer.

No dia marcado estava na Embaixada, á Lapa. O edifício de fora não mostrava o que era por dentro. Fui recebido por um Secretário que me levou, de elevador, para o último andar. Permitam-me que diga aqui que este andar, um tipo de varanda ou “penthouse”, transformada em estufa magnifica, toda envidraçada, com uma vista absolutamente deslumbrante sobre o rio Tejo, era simplesmente espectacular. Mas para minha surpresa [eu vinha para o que julgava ser um almoço a várias pessoas] vi uma mesa pequena, redonda, com dois talheres, em estilo tête-á-tête. Fiquei totalmente surpreendido e, confesso, receoso, ainda que sem conseguir explicar o motivo.

Carlucci apareceu de seguida e o almoço começou. Tudo era surrealista. Eu ser Chefe de Protocolo, um Embaixador dos E.U.A. estar, por iniciativa própria, a almoçar com esse Chefe de Protocolo, que nunca seria tal em tempos de normalidade politica e social.

Mas alguma razão havia para tal. A conversa foi manifestamente de recolha de informações por parte do Embaixador, para além, claro, de um começo de boas e amigáveis relações.

Eu tive a certeza, e mantive-a durante todo este tempo, que os americanos, e Carlucci em especial, não tinham grandes simpatias por Sá Carneiro e o seu partido. Foi-me manifesto que Carlucci era totalmente favorável a Mário Soares como elemento de estabilidade interna do país e considerava Sá Carneiro e os seus apoiantes como “destabilizadores” do processo de democratização de Portugal. Ainda que nada me dissesse sobre o assunto, vim a confirmar mais tarde toda esta manobra, quer pelo manifesto, [e que tive possibilidade de confirmar anos mais tarde na Alemanha], do apoio incondicional e financeiro do S.P.D. alemão ao P.S. português e ás dificuldades criadas ao P.S.D., no plano internacional. Sá Carneiro era para Carlucci, como me disse, um regionalista, homem elitista do norte, incompatível com a sociedade de então em Portugal. Curiosamente tive de esperar agora pela publicação do livro de Carlos Brito sobre Cunhal para compreender o que este lá diz e faz sentido na conversa que tive com Carlucci. Cunhal nunca foi recebido por Breshnev, mas sim por um membro de terceira linha do Partido, uma vez que o P.C. soviético tinha acordado com os E.U.A. que a Checoslováquia seria para a União Soviética e … Portugal para os E..A. [apenas cito Carlos de Brito]

A nossa conversa foi apenas interrompida por breves momentos por uma chamada telefónica de Washington, de Kissinger, grande amigo de Carlucci, sobre o próximo casamento do Embaixador.

Continuamos com boas relações, tendo Carlucci e a mulher vindo ao cocktail que demos de despedida, no nosso andar de Miraflores, para cerca de 200 pessoas, depois de me ter garantido, como digo adiante, uma escola americana em Sttugart.

Mas não esqueço o meu sentimento de profunda tristeza e frustração com que saí daquele almoço, sentimentos que hoje, estou certo, nunca seriam entendidos por um homem, Carlucci, que os criara, mas que viria a ser nem mais nem menos que Chefe da C.I.A. , na Administração Republicana…Senti que o meu País, ao fim de pouco menos de 100 anos, voltava a estar na dependência das “ordens”, conveniências e “dickacts” de potências estrangeiras. Para qualquer português tal situação era vexatória e lembrava tempos de muito má memória…. .

No Consulado-Geral de Portugal em Sttugart com jurisdição na Baviera

Colocado como Cônsul-Geral em Sttutgart, em Novembro de 1977, as minhas prioridades no posto eram: 1º.- ocupar-me, da melhor maneira possível, da comunidade portuguesa do Baden-Wurtemberg e Baviera, já que o Consulado em Muniqe era honorário, com um grande industrial bávaro á sua frente e, como Vice-Consul, de mim dependente, o Dr. Chaves, médico de estudos, Vice-Consul de profissão, irmão do que fora Secretário de Estado num dos governos de Salazar, Ubach Chaves. A comunidade portuguesa nos dois Estados andava pelos 80.00 portugueses [o que já era um número apreciável]; 2º.- dar uma impressão positiva do País que representava, muito em especial combater, se não mesmo eliminar, a tendência xenófoba para com os naturais do sul da Europa, os “sudlander” ou também, mais generalizado “os gastarbeiter”!

Sabia que poderia ser mais fácil na Baviera que no Baden-Wutemberg, de sociedade muito fechada, introvertida e desconfiada a tudo que não fosse “schwabich”, ainda que alemão; 3º.-dar um forte impulso, e mesmo, estruturar em bases sólidas e dignas o ensino do português aos filhos dos emigrantes.

Quanto ao 1º. ponto – procurei num trabalho longo, persistente e, por vezes, algo demorado bem servir todos os portugueses, e a área era enorme. Reunindo com os funcionários do Consulado-Geral atribui-lhes pelouros específicos, que não existiam, [para melhor contacto pessoal com os portugueses] alterando o horário de funcionamento do Consulado-Geral, estabelecendo um dia, a 2ª.feira, dia em geral mais morto, durante o qual a chancelaria estaria aberta das 8 horas da manhã ás 18 horas da tarde o que permitia, assim, que pessoas a distâncias longas viessem ao Consulado-Geral nesse dia e fossem atendidas no mesmo, poupando assim dias de falta ao trabalho.

Quanto ao 2º.- houve várias e interessantes ocasiões em que tive a oportunidade de afirmar a identidade do nosso País. Na audiência de cumprimentos ao Ministro Presidente do Baden-Wurtemberg, em Janeiro de 78, o então grande politico da C.D.U., Herr Dr. Firbinger [que em breve cairia em desgraça por ter sido descoberto o acto – semelhante ao que se passaria com Kurt Waldheim, Secretário-Geral da O.U., Presidente da República da Áustria- de ter pertencido há muitos anos atrás ás Juventudes Hitlerianas] e falando já alemão – devo dizer que na minha infância falei melhor alemão que português; meu tio Guilherme estivera de 33 a 38 como médico do então mais importante hospital da Europa, o Charité, que viria a conhecer bem quando na Embaixada em Berlim Oriental, já que esse hospital ficara na zona dominada pelos soviéticos. Assim, durante a guerra muitos e muitos amigos de meu tio, quase todos judeus alemães ou anti-nazis , [que nada tiveram a ver com o tal Sousa Mendes de Bordéus], passaram e instalaram-se em nossa casa a caminho de diversos destinos. Lembro-me muito bem de um que foi depois médico muito conhecido na Madeira, como Dr. Belmonte – o seu nome de origem era Schonberg, de origem bem judia, o que aportuguesado deu, para bem dele, Belmonte. Assim fui naturalmente, como acontece com as crianças, aprendendo a falar alemão. Quando cheguei a ter alemão no liceu tudo foi fácil, ainda que me ensinassem num livro em gótico! “Heute Abend” era o nome do livro…Loucura da altura.

Na audiência com o Ministro Presidente, estando presentes vários jornalistas, comecei logo por afirmar quanto me agradava vir representar Portugal num “Land” – Wurtemberg – com o qual tivemos relações de séculos e séculos. Aliás, nós portugueses tínhamos, podia afirmá-lo sangue “schwabisch”. O espanto foi geral, proporcional, aliás, á ignorância da história que já me parecia manifesta.

Tive, assim, oportunidade de explicar que no norte do que hoje é Portugal tivemos um reino suevo por cerca de 200 anos, justamente o povo que é a base étnica do Wurtemberg e de grande parte do sul da Alemanha. Apenas não referi que historicamente nós considerávamos esse período como o da invasão dos bárbaros.

Bom, no dia seguinte os jornais, em especial o Zud Deutsche Zeitung, trazia na 1ª.página “Cônsul-Geral de Portugal descendente de suevos”.Enfim, ficámos primos.

A seguir foi a audiência com o “Oberburgmeister” de Sttutgart, Presiente da Câmara, Dr. Mafred Rommel. Figura preponderante da C.D.U. era nem mais nem menos que o filho do Field Marshal Erwin Rommel, “a Raposa do Deserto”, Chefe do Afrika Korps de Hitler.

Aqui devo confessar que não tenho grande simpatia pelos chefes militares, pelo espírito de caserna e disciplina bélica. O Marechal Rommel nunca me pareceu uma pessoa simpática, nem no ponto de vista fisionómico, nem de acção como chefe de guerra. Mas a minha opinião é muito pessoal e de nada vale.

O certo é que o seu filho não tinha nada do pai. Era gago, ou pelo menos tinha uma forte dificuldade na dicção, era sobretudo um politico [o que o pai não foi de todo, pelo que seguiu o destino cego para o cianeto] e sobretudo era muito simpático e aberto, quando ultrapassada a sua timidez por um maior contacto.[ Tive muito recentemente por amigos comuns do Wurtemberg conhecimento de que Manfed Rommel sofre agora de Parkinsson, o que, infelizmente, dificulta em muito a sua capacidade de comunicação].

Falámos sobre vários assuntos da então actualidade alemã e ele não receou contar-me o famoso momento, de grande dramatismo, quando Rommel sai de Ulm, residência da família, e vai para Berlim, chamado por Hitler, para um julgamento marcial ou o suicídio. A familia sabia que seria, como na realidade foi, o suicídio, ainda que na altura não tenha sido revelado e o Marechal tenha tido um funeral de pompa com todas as honras de grande militar do III Reich.

A minha entrevista, e uma vez mais, teve também uma parte jocosa mas que serviria, ao mesmo tempo, para afirmar o que eu pretendia de um Consul-Geral de Portugal – autonomia e respeito.

A entrevista estava marcada para meados de Fevereiro; nessa altura nevava imenso e detesto neve. Mandei a minha secretária, nascida em Blumenau, Brasil mas 100% alemã, anular a entrevista e pedir a marcação para outra data. Como alemã, o Brasil não a influenciara em nada, ficou horrorizada, começou por me dizer que isso não seria bem aceite, isto é, bem visto. Insisti e mandei que dissesse, pura e simplesmente, que não sairia de casa com tal quantidade de neve.

Foi marcada outra data para Março. Assim, quando cheguei á Câmara, e perante, mais uma vez um grande número de jornalistas, desculpei-me junto de Manfred Rommel dizendo que não estava habituado a tanta neve. Logo isso foi aproveitado pela imprensa que, no dia seguinte, uma vez mais em páginas de foco, escrevia “GeneralKonsul von Portugal ein tropikalisch man”- o Cônsul-Geral de Portugal um homem dos trópicos!.

O trabalho estava feito. Pouca coisa, talvez, mas o que é a diplomacia senão pequenos gestos em maiores ocasiões e que tenham algum significado?

Minha Mulher e eu procurámos contactar com o que seria a melhor sociedade do Wurtemberg. Não posso deixar de referir aqui os bons laços que tivemos com os Principes de Hohenlohe-Langenburg, o Príncipe Kraft e sua mulher, Charlotte, Princesa de Croy. Foi o meu colega Cônsul-Geral do Reino Unido que nos deu oportunidade para desenvolver o que veio depois a ser uma boa amizade. O Principe Kraft era sobrinho do Principe Filipe de Edinburgh, já que sua mãe era Margarida, Princesa da Dinamarca e Grécia, irmã do Príncipe Filipe e filha do Principe Andrew da Grécia. Assim eram grandes os contactos com o Cônsul-Geral do Reino Unido e depois connosco, sobretudo porque a Princesa Charlotte era, então, uma grande benemérita e deu-nos o prazer de participar e, mesmo, patrocinar eventos para Clubes e Associações portuguesas no Land. [apesar da enorme catástrofe que sucedeu no castelo, com um grande incendio] Além de filantropa, era uma pessoa de grande cultura e conhecimento de arte, tendo sido mesmo nomeada representante da casa de leilões Christie´s em Munique, cargo que ocupou durante vários anos.

Bem mais difícil foi o contacto com outra das grandes famílias do Wurtemberg, os Hohenzollern-Sigmaringen. O interesse era mais pelo facto dos laços históricos com Portugal, laços aliás algo trágicos, já que tivemos uma Rainha de pouca duração daquela Casa do ramo católico de Hohenzollern, a Rainha Dona Estefânia, e depois outra Princesa, Vitória Augusta, que como mulher de S.M. D. Manuel II, não deu descendentes ao ramo Bragança reinante até 1910, como também não deu filhos no seu segundo casamento com um Conde sueco, como viúva de D. Manuel II, para além de uma filha da Rainha Dona Maria II, que veio a ser Princesa de Hohenzolern-Sigmaringen. Mas acabámos por ter uma relação que deu prestigio á representação consular e espero tenha sido aproveitada por quem me sucedeu no posto.

Não posso também deixar de mencionar aqui as relações que minha Mulher e eu tivemos com uma das figuras mais interessantes do Wurtemberg, não por si própria, mas antes pela relação familiar que teve com o que já nessa altura era considerado, a par de Rommel, um herói da Alemanha eterna. Refiro-me á Condessa Nina von Stauffenberg, Baronesa von Lercherfeld, de solteira, e viúva do Coronel Conde Claus von Stauffenberg, ainda que nascido na Baviera, de pura e muito antiga origem sueva. A família sempre teve vários castelos no Wurtemberg, sendo um, o de Albsatdt-Lautlingen um dos mais importantes e que viria a ser um museu. A nossa amizade, assim se tornou, deu depois origem a que nos fosse relatado pela própria Condessa muito do que ela sabia já do que se iria passar no famoso atentado contra o Hitler, da principal autoria de seu marido. Segundo ela o Conde ter-lhe-ia dito “se triunfar serei considerado um herói pelo povo alemão, se não um traidor; mas se nada fizer nunca estarei de bem com a minha consciência”. Tive de concluir que, no final, é um herói da Pátria Alemã e, ao mesmo tempo, deve ter sido fuzilado em paz com a sua consciência… Muito recentemente vim a saber, por amigos comuns, designadamente o Conde von Berg, de Sttugart, que a Condessa von Stauffenberg faleceu, ainda no inicio deste século, com 92 anos.

Em 23 de Junho de 1980, dia de anos de minha Mulher, demos uma grande recepção em nossa casa. Tínhamos uma varanda enorme, do tamanho de toda a casa, que deva para a floresta, pois vivíamos em Dachswald, na saída de Sttugart para Sidelfingen, a famosa terra dos Mercedes. Aproveitando a varanda como continuação da sala, com carpetes e móveis, dava para receber, em jantar volante, cerca de 200 pessoas. Estiveram presentes, do lado alemão, o Ministro Presidente, então Dr Spaeter, o Presidente da Câmara, o Seretário do Estado do Wurtemberg para a Educação, e, curiosamente, aquela que seria a mais próxima, ainda que por afinidade, da Família Real do Wurtemberg. Tratava-se de uma amiga nossa de outras ocasiões, a Princesa Maria Antónia zu Wied, viúva do Príncipe Wilhelm zu Wied, falecido em consequência de sérias feridas sofridas na Polónia na 2ª.Guerra, e este neto, pelo lado de sua mãe, a Princesa Pauline do Wurtemberg, de Guilherme II, último Rei do Wurtemberg e o último descendente masculino desta linha, já que seu filho faleceu muito jovem. A Princesa Maria Antónia era, pois, nora da última Wurtemberg do ramo real. A família dos Duques de Wurtemberg, já existente e hoje pretendentes oficiais ao trono do Wurtemberg, constituem uma linha muito remota, nunca reinante, de tradições católicas, diferentes, pois, do ramo da Casa Real.

Do lado português, além de vários representantes da comunidade nos dois Estados, Baden-Wurtemberg e Baviera, estavam também o Major Vítor Alves, Membro do então influente Conselho da Revolução e meu antigo conhecido dos tempos de Djakarta, quando se ocupava do “processo de descolonização de Timor” e várias vezes passou pela capital da Indonésia, e Manuela Aguiar, Secretária de Estado para as Comunidades.

Mas já de tarde tínhamos tido uma reunião de trabalho no Consulado-Geral, com autoridades portuguesas e alemãs, de onde sairia a decisão do Estado de Wurtemberg de comparticipar com DM 80.000, cada três meses, para o ensino de português, e a decisão, também, de a Lufthansa dar uma viagem por ano a cada português com passaporte emitido pelas autoridades consulares da Alemanha, isto é residentes legais no país, a metade do preço, de ida e volta a Portugal. Quanto ao primeiro aspecto dava-se assim um importante passo par contratar mais professores de português para virem, em comissão, para os Estados do sul da Alemanha, e melhorava-se, como é óbvio, o ensino da nossa língua. Com a segunda decisão, facilitava-se em muito a ida de férias de portugueses ao nosso País e, sobretudo, iria evitar-se não sei quantas mortes que ocorriam todos os anos com os emigrantes a guiarem, de seguida, horas e horas a fio para chegar aos seus destinos em Portugal.

Mas não foi apenas por isto que se ficou a acção do Consulado-Geral na área do ensino. Quando cheguei a Sttutgart encontrei um corpo de professores desmotivado e desprestigiado. As verbas que vinham do M.N.E. de Lisboa, de origem no Ministério da Educação, não chegavam a tempo e não eram suficientes para cobrir os salários dos professores, que haviam vindo de propósito de Portugal para o ensino do português. Chegavam a estar 3, 4 e mais meses sem serem pagos, o que era para eles aflitivo e dava origem a que fossem olhados com enorme desprezo pelas comunidades portuguesas e, mais ainda, pelas populações alemãs locais, de um modo geral de pequenas localidades e, logo, fáceis de mexericos.

Tive que pôr um travão a tal situação, com ou sem o apoio do Ministério em Lisboa. Fi-lo sem o seu apoio e decidi pagar tudo a tempo e horas usando o cofre consular, que tinha sempre fundos para tal e muito mais, sendo certo que o mesmo era reembolsado logo e quando nos chegassem fundos de Lisboa. O cofre podia esperar, isto é, a conta no Banco do Consulado-Geral podia esperar; os professores é que não.

E assim tudo se normalizou e mesmo, em período de grandes reinvindicações, aqueles mais activos neste campo compreenderam o bem fundado da medida tomada.

Mas fez-se mais. Criei um departamento no Consulado-Geral apenas dedicado ao ensino, com um chefe, professor experiente e prestigiado na classe, que despachava comigo, ainda que estivesse dependente do Ministério da Educação em Lisboa. Foi umaverdadeira revolução” ou melhor um implementar de disciplina e organização num serviço que tinha vindo totalmente á deriva. Assim estava quando saí de Sttutgart.

Em Stuttgart participei, de uma forma involuntária, num dos mais importantes acontecimentos do final dos anos 90, ou, pelo menos, com grandes repercussões quer então, quer, quem sabe ?, no futuro.

Em finais de Outubro de 1979 recebi um convite para jantarmos em casa do Comandante-Chefe da Forças Americanas estacionadas na Europa , cujo Quartel-Geral era em Boeblingen. [Não confundir com o Chefe Supremo da Nato, em Bruxelas].

Tratava- se do General Heyser, que já conhecia, e o jantar era em honra do Embaixador americano em Lisboa, Bloomberg. Normalmente todos os Embaixadores americanos na Europa faziam uma visita ao Estado Maior americano na Europa.

Dois dias antes a minha secretária recebe um telefonema pedindo desculpa mas informando que o jantar se mantinha só que seria oferecido pelo Vice-Comandante-Chefe. Fiquei bastante surpreendido, mas mantive a resposta afirmativa.

No dia marcado fomos a casa do Comandante-Chefe, eu e a minha Mulher. Á entrada fomos surpreendidos ao sermos recebidos por manifestamente um americano civil mas falando correctamente português e tratando-nos pelos nomes – Guilherme e Maria Manuela. E se havia motivo para a surpresa! Pois bem, tratava-se, nada mais nada menos, do que fora Vice-Consul americano em Durban quando eu era Cônsul nos anos 70. Estivera no State Department, ia ser nomeado para chefiar o Departamento politico da Embaixa dos E.U.A em Lisboa, tivera um curso intensíssimo de português [de aí o falar tão correctamente] e sabendo de antemão que nos iria encontrar estava preparado para nos fazer uma surpresa. E que grande surpresa.

Depois de algumas palavras, troca de recordações dos tempos agradáveis e conturbados também de Durban, veio a minha pergunta – mas o que se passa com o General Heyser? Claro que a nenhum diplomata passaria desapercebido uma troca tão sobre a hora do anfitrião. Então o nosso amigo, pedindo o maior segredo e invocando a antiga amizade, deu-nos a bombástica noticia que até poderia ter mudado a nossa vida – O general Heyser estava nessa altura em Teerão com um ultimatum de Jimmy Cárter, o tão desastroso Presidente dos E.U.A. para deixar o poder, o trono, ir para o exílio e assim dar lugar a Khomeni!!!

É evidente que assim aconteceu e os americanos nem sabiam “a caixa de Pandora” que abriam e, infelizmente, ainda não está fechada. A crise do petróleo, os tempos terríveis dos reféns da Embaixada americana em Teerão e agora a ameaça de loucos de uso de armas nucleares, para além do malfado fundamentalismo que tem feito sofrer tanto o Mundo, tudo isso continua a ser sentido por tantos com base numa decisão tão desastrosa.

Mas porquê poder ter mudado a nossa vida? O meu filho Mnuel teve nas escolas inglesas grandes amigos persas com quem ainda se encontra – o Bahran Pahlavi, sobrinho do Xa, por ser filho do segundo irmão, o Bakhtiar, e o Hadid Bazrgan , para nós, Baz [tudo nomes bem conhecidos em Teerão]. Com o Bharan e pais, Príncipe e Princesa Pahlavi, almoçámos várias vezes quando em St´Peters School [existe “The Old Boys St´Peters School Association] em Brighton, Eastbourne, mas sempre com policia secreta a acompanharmos. Com os outros, sobretudo com o Bazrgan, ou Baz, vemo-nos regularmente em Londres. Todos aida não acreditam, como dizem que muitos iranianos não acreditam também, na tal missão secreta de Heyser!!!

Bom o certo é que eu e a Maria Manuela tínhamos nessa altura algumas economias. Bastava termos comprado ouro – barras de ouro no nosso banco e de Outubro de 1979 a Fevereiro de 1981 a onça de ouro passou de 100 US.$ para 800$ - subiu 8, 8 repito, vezes. Teria sido um golpe de mestre. Enfim a vida é o que tem de ser.


Conselheiro na Embaixada em Belgrado


Tive uma passagem, infelizmente breve, por razões altamente dolorosas pelo falecimento súbito de minha Mulher, com um aneurisma cerebral, pela Embaixada em Belgrado. Fora uma nomeação como que “de castigo”, determinado por certas pessoas do Ministério, em especial o que era Secretário Geral, Hall Temido. O falecido, e meu grande amigo, José Maria Sherman de Macedo, que fora Conselheiro de Embaixada em Londres quando Temido era Embaixador, disse-me um dia, aliás na presença de minha Mulher e da dele, Leonor Campos Soares, de quem mais tarde se divorciou, com pena minha, pois era amigo de ambos, que aquele, ao “levantar-se de manhã, a primeira coisa que pensava era determinar quem iria atingir nesse dia…”[sic]. Temido teve uma carreira “meteórica”, sempre dentro do Estado Novo, mas de tal maneira dissimulada, que recebeu “bons juros” após o 25 de Abril. Mas verdade seja dita não foi caso único, pois a “chamada reeducação politica foi rápida e eficaz, mesmo para os mais predominantes executores da política externa, sobretudo, ultramarina”, como foi o caso, mais que manifesto e bem conhecido, do Hall Temido.

Custa-me mas para bem da verdade devo aqui escrever que o Temido, ao contrário do que fazia crer, era uma pessoa difícil, complexada, por vários motivos, muito dado a cliques e clientelas. Nunca teve grande simpatias por mim, mesmo no principio dos anos sessenta quando eu estava no Gabinete do Secretário-Geral e ele era Adjunto do Director-Geral dos Negócios Políticos e, aí, grande “executor da politica externa ultramarina”, sem aliás razão aparente. Um dia meu tio Guilherme, a quem o Temido devia grandes favores pois o meu tio foi um médico incansável com os pais do Temido, disse-me “ele não é de boa cepa; aquele “Hall” vem de um dos da soldadesca inglesa que pelos lados de Oliveira do Hospital passou contra o Massena e lá deixou “semente”…Eu não referiria isto mesmo se, por coincidência ou não, curiosamente a mesma frase, claro exagerada e jocosa, me não tivesse dita, praticamente nos mesmos termos, anos mais tarde pelo Embaixador Carlos Fernandes, grande diplomata e jurista, autor, entre outros, de uma tese sobre asilo politico e extradição, o primeiro e mais aprofundado estudo na matéria ao tempo. E não se ficou por ali a pouca simpatia que me dispensava, bem como as tais clientelas onde se movia. Assim aquando da morte súbita em Belgrado da minha Mulher, e tendo vindo a Lisboa para o funeral, falei com ele sobre a minha situação. Era ponto assente não voltar a Belgrado, pelo que, sabendo que estava vago o cargo de Cônsul-Geral em Bóston, manifestei-lhe o meu interesse em ser ali colocado, o que não seria nada de extraordinário, bem pelo contrário, em termos de categoria e antiguidade na carreira. Apenas julgava que, com o enorme golpe que sofrera, Bóston poderia de certo modo contribuir para uma recuperação psicológica. Nada disso; não aceitou para mandar para Bóston um dos tais “seus amigos”, o Rui Ávila, que depois veio a falecer muito novo e com a doença que tanto assusta – o cancro nos pulmões. E para mim não encontrou “melhor colocação” que a Embaixada em Berlim Oriental, um dos sítios mais sinistros, “escuros” em tudo, desde iluminação propriamente dita como vida quer normal, quer social.

Devo aqui afirmar que sei que agora o Temido está mal. Com uma bela idade, como tudo na vida lhe correu de feição. Mas não é por tal facto que escrevi o que consta atrás; fi-lo por ter entendido que era a verdade e, mais, que a morte não faz de quem quer que seja, independentemente dos seus actos ou tão somente do seu temperamento, feitio e carácter um “santo” ou um ser melhor do que foi em vida.

Mas havia também um elemento importante na minha nomeação. Era conhecida a minha manifesta antipatia pelo comunismo, e ainda por tudo quanto era “Embaixadores feitos á pressa, oportunistas”. Ora o de Belgrado era um deles e dos mais escandalosos. Estava ainda como Chefe do Protocolo de Estado a.i., quando o Ministro dos Negócios Estrangeiros, Medeiros Ferreira, enviou para o Protocolo uma nota, com o curriculum de Álvaro Guerra e a sua nomeação para Adido Cultural em Nova Delhi. Sendo um intelectual de Vila Franca de Xira ainda se poderia justificar uma tal nomeação, já que o lugar não era de carreira, mas simples comissão de serviço. Quantos outros semelhantes não desempenharam, e bem, tais funções. Porém, e para minha surpresa [acho que vivi muitas surpresas!] recebi pouco depois uma nota do Primeiro Ministro, Mário Soares, alterando a nomeação de Álvaro Guerra para…Embaixador em Belgrado e dando instruções para, segundo as normas, ser pedido o agréement. Tarefa nada fácil; em circunstâncias normais, para uma capital de renome, como encontrar um curriculum á altura de ser concedido o agréement?. Inventar ou, pura e simplesmente, acreditar na pouca importância do posto em questão e avançar sem mais e sem preconceitos. Escritor, jornalista de Vila Franca de Xira, amigo do PS, do seu Secretário Geral, e pouco mais... Mas chegou, sem grande admiração minha !

Assim parti para Belgrado com a certeza de que seria uma pura perda de tempo. Nada para aprender e muito menos com quem aprender.

Poderia haver um certo relacionamento com as pessoas do PS [o que não me interessava de todo, até por ser muito aleatório] – o próprio Álvaro Guerra acabou por ter um longo interregno dentro da sua improvisada carreira diplomática, como não poderia deixar de ser, para quem, como ele, estava ao sabor das vicissitudes partidárias – e um endoutrinamento á esquerda, com um certo “epaté le bourgeois” em termos de pseudo sucesso do comunismo, neste caso, da auto-gestão, que, como tive oportunidade de ver tão maus resultados dava - por exemplo, hoje havia em Belgrado pasta de dentes; em poucas horas desaparecia para não haver mais não se sabia por quanto tempo !!!

Também já nessa altura, 1981, após a morte de Tito, e com um sistema rotativo, por um ano, de Presidentes da Yugoslávia, segundo as partes que a compunham, era previsível a desintegração, e violenta pela idiossincrasia das gentes que a formavam, violentos, extremamente rancorosos uns com os outros, com fossos étnicos e religiosos quase que intransponíveis. Mas salvo para os Guerras desse tempo, que continuavam fascinados

pelo ainda não sei o quê desse e de outros países do bloco de Leste. Era tão patética a posição dos nossos representantes que me lembra bem, sendo Belgrado naquela altura uma cidade sem interesse, com um aglomerado de gente cinzenta, taciturna e agressiva, ouvir da Senhora Guerra dizer á minha Mulher, como ouvi, que não podia passar uma manhã sem ir á cidade e “ter um banho de multidão, da multidão do povo anónimo” [nada disse se levava alguma água de colónia consigo].

Aliás as pessoas da ex-Yugoslavia sofreram, e muito, mais tarde por tudo quanto lhes foi legado ao longo de tantos anos. Padeceram todos. E não posso deixar de pensar que foi naquela região, em Serajevo, que em 1914, com o assassinato do Arquiduque Francisco Fernando da Áustria, começou o primeiro e terrível massacre para a Europa e o Mundo da 1ª Grande Guerra, que daria lugar directo a outro massacre, a 2ª Guerra. Ambos, mas sobretudo a primeira, mudaria de vez o cariz do mundo civilizado para dar lugar a verdadeiros monstros e a igualmente monstruosas ideologias. Há coincidências que, não deixando de ser coincidências, nos fazem pensar num tipo de “justiça por retaliação”…

Sobre o comunismo eu tinha ideias bem claras. Estivera em missão em alguns países com esse regime, fora Cônsul-Geral em Stuttgart com jurisdição sobre a Baviera. Assim fui convidado pelo Ministro Presidente bávaro, o famoso Franz Joseph Strauss, para fazer uma visita de todo um dia ao famigerado “muro” que não era só de Berlim, mas tinha milhares de quilómetros, pois vinha desde o Mar do Norte até ao ponto triangular da junção da Alemanha, Áustria e Checoslováquia. Foi uma experiência extraordinária. Do lado de cá nada havia se não uma estrada. Mas a dividir as duas Alemanhas havia, pelo menos, 3 quilómetros de faixa de terreno com arame farpado, valas, guaritas de tantos em tantos metros, e uma terra de ninguém onde se movimentavam apenas os “vopos”, soldados comunistas. O ponto alto era por volta das 5 da tarde. Nessa altura os soldados armadilhavam as espingardas dependuradas no arame farpado para os fins óbvios. Disseram-me que acontecia por vezes que um dos soldados era ferido ou morria ao preparar as armas ou em consequência de fogo acidental cruzado, já que as espingardas estavam posicionadas para apanhar o alvo, disparando de uma direcção e da outra oposta, em simultâneo.

Nessa altura fiz um muito longo relatório para o M.N.E., relatando tudo o que vira e dando enfâse a que, pela primeira vez na história da humanidade fora feita uma fronteira, não para impedir ou controlar quem entrava, mas para impedir, pura e simplesmente, quem quisesse sair. A minha posição não podia ser mais clara. Aliás acrescentava ser minha convicção que tal regime não poderia, de forma alguma, durar muito mais tempo por ser anti-natural, opressivo, coercivo do ser humano; apenas não sabia quando iria desmoronar-se, pois era ainda minha convicção que tudo se passaria de dentro para fora. 1981-1989 – não foram precisos nem 10 anos para que tal acontecesse.

Muitas vezes tenho pensado quanto devem ter sofrido, em termos morais e anímicos, aqueles que levaram uma vida inteira, por convicção, e não por oportunismo, a lutar e acreditar numa ideologia tão perversa e que tanto mal causou no sec. XX. Não posso deixar de pensar, nestes casos, que o inferno é verdadeiramente nesta terra, para quem tanto contribuiu para o mal e viveu, não morreu antes, para ver o colapso real e prático dos seus ideais.

Belgrado era mais do que tempo perdido. Era uma frustração para quem, como eu, acredita que a diplomacia se exerce com base nos valores de cultura, tradição, ético-sociais, ainda que também, com uma tónica materialista em termos comerciais e industriais. As nossas afinidades de séculos não eram com povos eslavos, com povos do
leste. Nada nos ligava a eles e pouco poderíamos aprender com eles. Deveríamos cultivar, promover as nossas relações com países da região a que pertencíamos – a atlântica e africana – ou com quem tivéramos contactos no passado como os latino-americanos e também asiáticos. Lamentava profundamente não termos uma Embaixada nas Filipinas; na Malásia, onde o fenómeno de Malaca é impar, ou até Singapura, grande gigante da ASEAN. Mas agora que a poeira do Leste já assentou, que o “bloco” deu lugar a uma proliferação de pequenos e insignificantes Estados, esses agora sim, nada significando para nós, e com a União Europeia, certamente que a diplomacia portuguesa encontrará o seu rumo certo, isto é, realista e pragmático.

Já estava a escrever este texto quando tive conhecimento, na comunicação social, de um assunto envolvendo o que fora por pouco mais de 2 anos Embaixador na UNESCO, o Primeiro Ministro e, também, o Ministro dos Negócios Estrangeiros. O tal Embaixador na UNESO, aliás da mesma cor partidária dos restantes referidos, tinha feito um documento de reestruturação dos serviços diplomáticos de Portugal, na base da contenção de despesas. É mais um caso de “meter a foice em seara alheia”, já que 2 anos e tal de Embaixador não dá para se ter uma visão e um conhecimento completo e abrangente das necessidades diplomáticas de um País. De fora de carreira aquele Embaixador pode ser e é certamente um excelente Professor académico universitário, onde esteve muitos anos. Mas um diplomata, com longos e longos anos de carreira, pode bem, e muito bem mesmo, vir a dar aulas numa Universidade quando, por exemplo, terminar a sua vida diplomática.

Ora aquele Embaixador de passagem no seu plano, que nem dá para qualificar, vinha restringir o número de Embaixadas, fechando umas tantas, ou juntando duas ou mais numa só. Assim dava o exemplo de Embaixadas acreditadas em Organizações diferentes, mas na mesma cidade, como UNESCO e OCDE, em Paris, que poderiam vir a ter uma só Embaixada para as duas instituições. Inqualificável, já que se esquece que não é a situação geográfica que conta para definir a competência de uma Embaixada, mas as matérias que as instituições onde estão acreditadas tratam. Já tem havido tão maus Embaixadores numa só, por exemplo, delas, o que seria então se o memo se ocupasse de coisas tão distintas como as Ciências e Cultura e a Economia e Comércio? Mas há mais. Refere-se ao Magrebe e avança com a ideia absurda de propor uma, ou quando muito duas, Embaixadas para se ocuparem de países com Egipto, Líbia Argélia e Tunísia…A única coisa que estes países têm de comum, Senhor Professor, é que seguem o Islão, falam uma língua única, o árabe, ainda que tenham várias línguas próprias e só no árabe se entendem todos, mas têm interesses próprios que se reflectem a nível de politica internacional completamente distintos. E cada um de per si têm para nós, para Portugal, um significado politico e interesse cultural, comercial e estratégico próprio e distinto um dos outros.

O haver um Embaixador acreditado numa capital mas residente permanentemente numa outra, é caso muito antigo e algo frequente. Quando foi da tomada de posse do General Eanes como Presidente da República, como referi, nos cumprimentos do Corpo Diplomático acreditado em Lisboa, ocorrida no Palácio da Ajuda, sendo eu Chefe de Protocolo de Estado a.i., tive oportunidade de conhecer Embaixadores de países que nem sonhava estarem cá acreditados. Vieram todos na ocasião o que trouxe grandes problemas a mim e ao Protocolo, pois eram desconhecidos, alguns deles tendo cá estado uma vez só, na apresentação de credenciais, a maior deles tendo-o feito ao Almirante Américo Thomaz … Mas acrescente-se que quase todos eram de países que embora tivessem relações diplomáticas connosco, tinham para nós e internacionalmente pouca expressão. Como esclarecimento algo jocoso devo aqui dizer que nenhum Embaixador acreditado em Portugal, mas não residente, poderia ser concomitantemente Embaixador residente em Madrid! Era regra sagrada de há anos e anos. Poderia ser em Paris, Roma ou mesmo mais longe, mas …não queríamos “confusões”, nem pretensa junção de Estados para nós tão diferentes.

A contenção não pode nem deve fazer-se no corte do número de Embaixadas ou na sua amalgama por, uma vez mais, localização geográfica. Ao País interessa diversificar as suas relações, afirmar a sua presença no mundo segundo os seus interesses actuais, o seu passado histórico, as suas afinidades culturais e, claro, o seu interesse primordial, comercial e financeiro. Depois será racionalizar os próprios serviços, e aí, sim, poupar, economizar nas despesas, num dos casos, por exemplo, evitar chamar pessoas ad hoc por serem incómodas no país ou para as recompensar em prestigio e financeiramente de qualquer serviço já prestado, não ao país, mas a uma facção política. E bom seria que pessoas altamente preparadas nas suas especialidades não se imiscuíssem em assuntos com que sonham, mas mal sabem ou deles pouca experiência têm. O que o Senhor Professor, Embaixador por dois anos e pico, propunha não era a racionalização dos serviços diplomáticos. Era, e sim, a sua “ irracionalização”…


Na Embaixada de Portugal em Berlim [R.D.A.]


Se Belgrado pouco ou nada adiantou para o meu trabalho pessoal o mesmo não aconteceu depois, mas não de seguida, já que, uma vez mais na linha da atitude referida anteriormente, o Ministério não teve melhor solução [como escrevi antes] para quem havia tido um tão profundo golpe que enviar-me para… a Embaixada em Berlim Leste. . É certo que ia como Ministro Conselheiro e para um posto com um Embaixador doente, quase sempre ausente, o que fazia de mim um semi-permanente Encarregado de Negócios.

Em termos pessoais o posto era péssimo, deprimente, numa parte da cidade sem vida, ás escuras a partir de cedo do dia. A este propósito lembro-me do Embaixador do Peru, um velho politico recém chegado, dizer-me num cocktail onde fomos apresentados “ mas que ciudad esta. A las cinco de la tarde toca el silencio, verdad ?” Assim era, na verdade, sempre ás cinco da tarde, como dizia Garcia Lorca.

Por outro lado, fora substituir um homossexual reconhecido, ainda que discreto, e de início quem não me conhecia estava manifestamente com curiosidade. Infelizmente já me calhara uma situação semelhante, num posto antes [Djakarta], em que, muito embora eu não tivesse sido o substituto, fora um sucessor com alguém, felizmente normal, pelo meio. E, também o caso mais mediático, o de Stuttgart. Aí tivera como meu colega, antes de mim, nada mais nada menos, que o Jorge Rito, que mais tarde se tornaria famoso no processo Casa Pia, onde se assumiu voluntariamente como homossexual e foi condenado em 1ª.instância. Em Stuttgart fora apanhado a aliciar um jovem num dos belos jardins da cidade, tendo-lhe oferecido um sofisticado aparelho de estereofonia. Os pais da criança levaram o assunto para diante, depois de interrogarem o filho, passaram para a policia e o Jorge Rito, tendo imunidade diplomática, foi considerado pelo Ausswertig Amt , Ministério dos Negócios Estrangeiros de Bonn, “persona non grata” e foi pedido ao Ministério dos Negócios Estrangeiros de Portugal a sua transferência em 24 horas sob pena de, sendo-lhe retiradas as imunidades, vir a ser sujeito a procedimento criminal. Lisboa assim fez… Mas já estava cansado do tipo de fama perversa que se estava a criar sobre os diplomatas portugueses!

Profissionalmente o posto pouco interesse tinha para nós directamente. Já não nos interessava a interferência ou não da RD.A. nos assuntos africanos, designadamente Angola, as relações politicas eram muito ténues e sem grande valor. Ficavam-nos a parte comercial, em especial a conhecida Feira de Leipzig, mas havia uma eficiente funcionária do Fundo de Comércio Externo, que ainda de não muito boas relações com o pessoal diplomático da Embaixada, já que estando lá fisicamente tinha um estatuto autónomo, o que cria sempre atritos e conflitos, que vinham sempre parar a mim. E, pela proximidade, e sendo o país satélite soviético mais desenvolvido, apesar de tudo, era um bom posto de observação para a zona. O tema mais em voga era, claro a Polónia,

Walesa e Jaruzelski, o General de óculos de sol, como eu lhe chamava. Todos os dias, logo pela manhã, eu tinha comigo uma funcionária administrativa portuguesa com o relato de toda a imprensa do dia e o tema favorito era a Polónia. Havia ainda, entre todo o pessoal administrativo, uma secretária alemã, Frau Zimmerman, tipicamente alemã, gorda, grande e volumosa, mas muito simpática. Era a indicada pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros local, como informadora, pois sendo filha de um velho comunista e ela própria militante, seria de confiança para o partido. Mas coitada tinha uma tarefa bem monótona pois nada que merecesse um bom relatório se passava naquela missão. O outro “espião” era, como não podia deixar de ser o motorista. Mas este, como os das outras Embaixadas, tendo livre acesso á parte ocidental de Berlim, através do muro, volta meia volta lá ficavam, com cuidado em relação á família, para não mais voltarem.

Tudo continham os presságios, ainda que vagos e pouco consistentes ainda, do que fora minha convicção antes sobre o destino do bloco comunista – a sua impulsão e, talvez, de forma violenta, dependia dos casos, leia-se países, e populações – o caso da Roménia foi evidente e, claro, o mais chocante de todos o da ex-Yugoslavia, mas esta por razões já expressas antes, motivadas em características próprias dos povos que constituíam a
Federação, que explodiram violentamente quando esta se desintegrou.. Mandava telegramas duros e “realistas” para Lisboa, independentemente das consequências. E fazia-o na convicção de que, quando lá estava, havia um Embaixador que eu já conhecia há muitos anos, pouco fiável e pouco capaz. A este propósito lembro-me do que com ele se passou pelos anos 62/63. Havia concursos para Conselheiro de Embaixada e ele era um dos candidatos. A sua tese era, como a de outros, por ser assunto na moda “a penetração comunista em África”. Eu estava nessa altura a chefiar temporariamente a Secção do Pacto do Atlântico [o Chefe fora destacado, em comissão, para Karachi para se ocupar das consequências da invasão de Goa] que se encontrava, como casa forte na cave do Ministério. Um dia o então referido candidato a Conselheiro veio ver-me e pediu-me se não poderia utilizar uma das salas vazias da Secção para estudar para os concursos. Claro que disse-lhe que sim. De imediato apareceu-me durante alguns dias, literalmente com pilhas de livros, revistas, etc, que amontoava na secretária e cadeiras da sala que lhe destinei. Depois quase nunca mais o vi…Mas um dia encontrei um outro
candidato, Eduardo Condé, que se queixou de não haver material de consulta na Biblioteca sobre o comunismo em África, pois tudo fora requisitado pelo seu colega, mais tarde Embaixador em Berlim Leste!!! Nada disse, mas fiquei elucidado, quer sobre a pessoa, quer sobre os métodos seguidos por alguns naquele Ministério.

Em Berlim, mais ainda que quando Cônsul-Geral em Stuttgart, tive cada vez mais a convicção, ali vivida, da inevitável queda do bloco soviético. Tinha a percepção de que, por um lado, todos, ou quase todos os alemães do Ocidente queriam a reunificação da Alemanha. Era um ponto de honra e não atendiam aos custos que isso iria implicar. Como aliás se veio a verificar. Pelo tremendo desiquilíbrio entre as duas economias, pelos preços a pagar por uma subvenção maciça da parte Leste pelo Ocidente alemão, e , ainda, economicamente, pela equivalência, como não podia deixar de ser feito, ainda que com enormes encargos, do DM com o M , isto é da moeda do Ocidente com a de Leste [de recordar que o DM valia 4 M!!!]. O país unificado não poderia ter duas moedas distintas.

Certos políticos não alemães receavam a queda do Muro, não que defendessem o império soviético, mas receavam, no fundo, uma Alemanha unificada, com a dimensão do III Reich. Assim acontecia com Margaret Tatcher e Mitterand, o que de certo modo seria compreensível. Por outro lado havia ainda o receio do eventual caos que se gerasse com a queda do outro “super-power” [na verdade pode dizer-se que agora vive-se uma situação que não existia desde há 2.000 anos, desde o Império Romano]. Vivemos agora, como então, com um só “super-power, os E.U.A. até que apareça um outro, talvez a China, India ou semelhante. Mas os resultados são preocupantes, como têm demonstrado as realidades nestes últimos 20 anos, tantos os que já levam a queda do Muro.

Os receios fundados daqueles políticos, que acabaram por ser contrariados pelos políticos americanos como Reagan e Bush pai, tiveram também uma defesa capaz na própria integração efectiva e envolvente da Alemanha Unificada na União Europeia. O que, diga-se em boa verdade, que isso não obstou a que os grandes custos da reunificação tivessem que ser suportados principalmente pelos alemães, mas, não havendo moeda única, o Bundesbank ao aumentar as taxas de juro nos anos 90, levou a que outros Bancos Centrais tivessem que fazer o mesmo e, assim, os custos da reunificação vieram depois a recair sobre os próprios europeus, ainda que em menor grau.

Ainda recentemente deram-se desenvolvimentos na União Europeia, sobretudo na zona euro, que, em certo sentido, vieram, no fundo, a dar uma confirmação do que há longo tempo eu via desde Berlim.

A Alemanha na sua ânsia de reunificação descurava, ou esquecia, os enormes gastos que isso lhe acarretaria. Anos e anos se passaram, afirmou-se a União Europeia, criou-se a zona euro, enquanto a Alemanha progredia com uma enorme energia, grandes sacrifícios internos, em tremendo contraste com o desvario nos gastos públicos de certos países, os tais chamados periféricos, acrescidos da Irlanda. Tais países estão agora com enormes dificuldades, sendo a Alemanha que, uma vez mais, está a dispender milhões, agora para outros e já não só para a sua “reunificação”. É possível que o alemão votante e pagante de impostos se canse de ajudar os outros. E diz-se – e se vier a ceder a zona euro? Pergunta ingénua e irracional. Porque não perguntar – e se a Alemanha concluir que é melhor para ela sair do euro e regressar ao “deutche mark”? Aí sim as consequências seriam trágicas para muitos e a Europa já não seria a mesma, nem com o que se sonhava anos atrás… Na RFA e RDA uma coisa aprendi – a Alemanha volta sempre a renascer das cinzas como uma Fénix, imagem tão adequada á literatura, música e poesia germânicas!

Tudo isto era apreciado a partir de Berlim e devidamente relatado, sem futurologia claro, para Lisboa. Enquanto funcionário diplomático português em Berlim era meu desejo manifesto que a politica de Moscovo, com a morte de Brezhnev e depois a vinda de Gorbachov, e a sua Perestroika, conduzissem á criação das condições necessárias á “tal impulsão” do edifício comunista. O povo poderia fazê-lo, mas era necessário que houvesse condições internas para tal. A Gorbachev juntou-se o Papa João Paulo II [sobretudo quanto á Polónia] e, claro, a política externa norte-americana. Sempre duvidei, e continuo a duvidar que Gorbachev tivesse real consciência das consequências da sua politica, isto é, que soubesse com clareza para onde ia. Antes que o fizesse num dia a dia, segundo os acontecimentos, que esperava sempre poder controlar.

O resultado hoje é histórico. Mas uma coisa sempre me impressionou e, até essa, é altamente desfavorável ao regime soviético, no ponto de vista russo. O que os Czares levaram séculos a construir, conquistando, anexando territórios sobre territórios até formarem o Império Russo do início do sec. XX, o regime comunista, que o herdou, manteve e expandiu durante cerca de 80 anos, acabou por perder tudo, mesmo o que os Czares lhes deixaram. Hoje ao lado da Rússia temos, uma vez mais, como independentes, uma Geórgia, uma Arménia, uma Ucrânia, um Cazaquistão, etc, etc.

E se isto será de grande alegria e regozijo para os povos dos Estados mencionados, pode não deixar de ser uma fonte de possível instabilidade, desiquilibrio regional com as consequências que, então sim, podem ser nefastas para a comunidade internacional em geral.


De novo em serviço no Protocolo de Estado


Chamado em serviço á Secretaria de Estado ainda fiz serviço de Protocolo de Estado, designadamente aquando da visita oficial de S.S. o Papa João Paulo II em Maio de 1982.



Com S.S. o Papa João Paulo II, em Fátima, 1982.
S. S. apresenta ainda um estado algo debilitado pelo atentado em 13 de Maio do ano
anterior


Mais tarde terminei a obra que há tantos anos começara e fiz sair a 1ª.edição. De tiragem pouco numerosa em breve se esgotou. Mas, por outro lado, surgiram novos elementos, ou porque os descobri, ou porque me foram proporcionados por pessoas que tiveram acesso ao livro.

A 2ª.edição era, pois, inevitável.

Agora abalanço-me a fazer uma edição revista e acrescentada. Há várias razões para tal: primeiro, por me parecer que estou sempre junto a uma “fonte” que não pára de jorrar. Há sempre mais matéria que não conhecia ou, então, outra que embora fosse já do meu conhecimento, não ousei incluir nas edições anteriores; segundo, porque já mesmo aquando da 1ª.edição vim a ter conhecimento que pessoas, muito poucas aliás, levantaram dúvidas sobre algumas partes do conteúdo do meu trabalho – que mesmo assim mantive – por razões pouco esclarecedoras, não tendo a coragem nem de se dirigirem a mim directamente, nem de o fazerem de uma forma publicada, em livro, artigo, ou outro meio convincente [ quase sempre essa pessoa ou pessoas tinham estado
em contacto comigo, conheciam o meu projecto, mas duvidaram que tivesse capacidade para o levar a cabo], e procuraram servir-se, para o que me pediram mesmo, material que possuo, mas, por razões óbvias, não quis partilhar na totalidade, embora dispusesse de algum, como o caso do livro do Prof. do Ceará Doutor Raimundo Girão, que era totalmente cá desconhecido e me foi por ele oferecido em …1966 !!!.

É de salientar, sobre o assunto que mais polémica levantou nos abordados no meu trabalho [e, no fundo, são tantos!], a correspondência trocada com as eminentes historiadoras Profa. Doutora Manuela Mendonça e Profa. Doutora Odete Sequeira Martins, aqui reproduzida, no final deste volume. A primeira é a emérita Presidente da Academia Portuguesa de História e a segunda, Académica também, é especializada no período de D. Carlos I, tendo sido da sua autoria o capítulo sobre este Rei no volume XV da “História Genealógica da Casa Real Portuguesa” de D. António Caetano de Sousa.

O assunto diz respeito ao título de Visconde de São Jorge. Como está bem patente no documento de concessão do título por S.M. El-Rei D.Carlos I, documento aqui reproduzido e consta na Torre do Tombo, “Livro das Mercês”, o titulo foi concedido a Adriano Augusto d´ Oliveira. É tudo. Nem a Adriano Augusto Campos de Oliveira, ou Soares, Reis ou outro qualquer apelido que agora se quer acrescentar, sem base, prova ou credibilidade nenhuma. Não há nenhuma certidão de nascimento que venha comprovar que Adriano Augusto de Oliveira – expressamente referido no “Livro das Mercês”- seja Adriano Augusto Campos de Oliveira.

E uma nota que me parece muito importante e tem sido, pura e simplesmente, descartada, por incúria ou intencionalmente, pelos detractores do meu trabalho. Por duas vezes a Secretaria de Estado do Reino usou o nome de Adriano Augusto d´Oliveira para a concessão de mercês régias e, note-se, em datas e documentos separados. E sempre aquele nome e não outro. Assim, na concessão da Ordem de Na Sra da Conceição de Vila Viçosa…e no título de Visconde de São Jorge. Peço perdão, por três vezes e não apenas duas, já que também há a nomeação de Fidalgo da Casa Real, por decreto de 21 de Agosto de 1893!!! Por muito incompetentes que fossem, como por vezes são ainda hoje, os serviços públicos, parece difícil ou muito pouco provável que praticassem, duas vezes, ou três vezes, um erro por omissão tão grave quanto o que diz respeito á identificação de, nada mais nada menos, um certamente ilustre agraciado régio. Tenho a certeza que a Chancelaria das Ordens Honorificas Portuguesas hoje, em plena República, e dedicando-se, apenas, ás condecorações portuguesas, e claro não a títulos nobiliárquicos, nunca cometeria um erro tão grosseiro e enganador quanto o que se prende com a real e completa identidade de um agraciado !!! Pensem nisso, por favor e deixem-se de, em local tão banalizado e vulgar, tratar de assuntos que exigem seriedade e provas, sobretudo documentais. É de espantar que, tendo o meu livro sido publicado na 1ª. Edição em 2005, só recentemente, isto é, 5 anos depois, apareça um bisneto, assim creio, do que terá sido Adriano Augusto Campos de Oliveira. Não discuto, nem duvido da sua linha genealógica, desde que seja bisneto deste último, que segundo informações publicadas na Internet por um confrade teve uma vida tão atribulada que chegou a enviuvar no próprio dia do casamento. Aceitemos tal como um facto. Sem dúvida. Mas como também se afirma que não teve descendência, o tal bisneto de nome que já não recordo, talvez pela sua banalidade, ou resulta de um 2º. casamento de Adriano Augusto Campos d´Oliveira, ou vem de uma linha bastarda. Nem mais nem menos. E sem ofensa, que não a merece.

Mas, e aliás basta ler as cartas trocadas com as eminentes historiadoras acima referidas. Podem continuar a insistir no quer que seja mas ali fica esclarecido o assunto em apreço de uma forma que não poderia ser mais idónea, no ponto de vista histórico e científico, por vir de quem vem. E não, como se sabe bem hoje, tratado que foi nas páginas da internet, que não têm qualquer credibilidade, por pessoas sem idoneidade intelectual e académica, muito em especial no GeneAll.net, de uma forma atabalhoada, inconsequente, por amadores e no estilo que lhes é próprio. Sem base séria de estudo credível, a nada levam e de nada servem, no bom sentido. Um mero exibicionismo primário para satisfação de um número reduzido de pessoas, mais clube “partidário” que assembleia académicamente reconhecida.

No entanto, e para gáudio meu, foi cometido um erro grosseiro num escrito creio que no Fórum, o tal onde tudo é permitido e quem quer, escreve, umas vezes bem, mas a maior parte mal. Foi escrito que Adriano Augusto Campos de Oliveira, quando reconheceu um filho ilegítimo era Vice-Consul de Portugal e morava em Paris, na Rua Lafayette no. 13. [sic “confrade” Maria Benedita]. Posso agora afirmar que nos arquivos do Ministério dos Negócios Estrangeiros não consta Adriano Augusto Campos de Oliveira como Vice-Consul de Portugal em Paris. E nada mais fiável que os arquivos do Ministério, consultados não por mim [parte eventualmente suspeita] mas por uma funcionária superior do Arquivo e Biblioteca !!! Mas admitindo que o tivesse sido posso dizer que trabalhei com vários Vice-Consules. Quer agora, quer então, não eram funcionários de carreira mas sim contratados para um certo posto, ou sendo já administrativos, podiam vir a ser nomeados, por conveniência de serviço para a posição de Vice-Consul, e podiam então ser mesmo transferidos para outros postos. Mas figuravam nos Anuários e outros documentos.

Mas vamos aos finais do sec. XIX. Um Vice-Consul era uma figura insignificante no meio diplomático e consular, longe, muito longe mesmo de ser distinguido com um título de Visconde…E sobretudo em Paris com tantas Embaixadas, Legações e logo Embaixadores, Ministros, Conselheiros, Secretários de 1ª, 2ª, 3ª, classe, Cônsules-Gerais e Cônsules de tantos Estados que não deixavam de estar representados em Paris. Logo Adriano Augusto Campos de Oliveira seria um Vice-Consul em Paris sem qualquer projecção diplomática ou consular e mesmo social que o distinguisse de sobremaneira. Não justificaria de todo um título, logo quando era Cônsul-Geral em Paris, e de carreira, um grande Eça de Queiroz. Meu Deus, que ignorância e que ignomínia !!! Tenham dó da inteligência e sensibilidade dos outros.

Mas há mais. Consultados os arquivos do M.N.E. , o que para mim não foi difícil através de quem competente, na parte relativa aos funcionários no estrangeiro, designadamente em Paris, desde 1893, data do Decreto de D. Carlos I até 1904, data tida como do falecimento do Vice-Consul, nunca, como escrevi acima, neles aparece qualquer referência a Adriano Augusto Campos de Oliveira, Vice-Consul em Paris como Visconde de São Jorge. E logo no M.N.E., tão estrito em protocolo e em tratamento devido a quem tem o direito a tê-lo. Seria impensável que os serviços ignorassem, ainda na monarquia, uma mercês régia, um viscondado.

Mas se mais fosse necessário para encerrar esta saga ADRIANO AUGUSTO CAMPOS DE OLIVEIRA=VISCONDE DE SÃO JORGE, basta considerar então isto; os títulos que foram concedidos na monarquia constitucional requeriam que os agraciados pagassem taxas ou impostos fixados pela Secretaria do Reino e consoante os títulos. Sem o pagamento os mesmos não tinham efectividade. Ora, uma vez mais consultados os arquivos, agora da Secretaria do Reino das Finanças, Tributação e Impostos, não consta que Adriano Augusto Campos de Oliveira tivesse pago fosse o que fosse pela concessão do título de Visconde de São Jorge. [devo esclarecer aqui que já no sec.XVIII em outros países os nobres pagavam taxas e impostos, designadamente aqueles pela concessão de um título, prática tão criticado ao tempo; não era exclusivo da monarquia portuguesa. Cito a escritora Isabel de Madariaga no seu livro “Catherine the Great, a Short History”, 1996, pags 110, 131 e 148, “… os nobres na Rússia pagavam taxas e impostos elevados, designadamente nos bens de luxo importados; na entrada ou promoção no “Livro de Nobreza” ou “Table of Ranks” que iam desde 50 rublos para um simples nobre, passando por 100 rublos para o título de conde e 500 rublos para mais elevados ou, no exército, para o de Marechal de Campo; de notar que os títulos de barão e de conde podiam ser concedidos livremente pelo Soberano; já o de Príncipe pertencia só aos descendentes de uma das famílias reinantes nos territórios antigos da Russia, como os Rurikids, Grão-Duques de Kieve, os Gedimin, Grão-Duques da Lituânia ou os Tsares Tártaros. Assim quando Catarina desejava recompensar um seu “favorito” com o título de Príncipe tinha de recorrer a José II, da Áustria, Imperador do S.I.R., ficando o titular Príncipe do Sacro Império, mas pagando igualmente taxas no Império Russo. Curiosamente foi assim que o pai de Lenine se tornou nobre hereditário ao entrar no “Livro de Nobreza” a seu pedido, após mais de 22 anos de serviço como professor do ensino superior!].

Estas duas constatações são mais do que suficientes para afastar de vez que ADRIANO AUGUSTO CAMPOS DE OLIVEIRA tenha sido Visconde de São Jorge.

Mas há que acrescentar as cartas trocadas sobre o assunto com a Presidente da Academia de História e aqui repriduzidas pois elas são bem elucidativas dos erros em que se insiste , ainda que sejam por historiadoras eminentes claramente reconhecidos como tal.

Seguem as cartas trocadas

Lisboa 4 de Fevereiro de 2008

Dras Manuela Mendonça e Dra. M. Odete Sequeira Martins

Academia Portuguesa de História

Alameda as Linhas de Torres 198 R/C

Lisboa

Exmas Senhoras

Tive oportunidade de adquirir a publicação “História Genealógica da Casa Real Portuguesa” de D. António Caetano de Sousa , na edição QuidNovi/Público.

Ao ler o seu vol. XV, que não é já da autoria de D. António Caetano de Sousa, verifiquei que na parte que se refere aos títulos concedidos pelo Rei D. Carlos I,- página 536 - figura como Visconde de São Jorge Adriano Augusto Campos de Oliveira.

Sou um mero estudioso de genealogia e não deixei de ficar surpreendido com a indicação daquele nome como tendo sido a quem foi atribuído tal título.

Muito honestamente não consigo descobrir onde VV.Exas foram encontrar tal referência, isto é, em que documentos oficiais consta a atribuição de tal honraria nobiliárquica a Adriano Augusto Campos de Oliveira. Terá sido na Torre do Tombo ? Em algum outro lugar oficial? E, nesse caso, em qual?

Na Torre do Tombo , Livro das Mercês de D. Carlos I , consta a folhas 162, o Decreto da concessão do título de Visconde de São Jorge, de 7 de Novembro de 1893,[ e não 7 de Dezembro, como na página do vosso livro acima indicada se menciona, certamente por lapso] a Adriano Augusto d´Oliveira, Comendador da Ordem Militar de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa, Fidalgo Cavaleiro da minha Real Casa [sic].

Não se trata, pois, de Campos de Oliveira, como de qualquer outro nome antes de Oliveira, isto é, Lopes, Silva, Santos, Pires, etc.

VV.Exas, presumo, são investigadoras, historiadoras ou genealogistas com honestidade intelectual e probidade académica. Não podem, evidentemente, acrescentar a um documento oficial nomes, datas ou quaisquer outras referências que dele não constam

Assim, ficamos com o Decreto acima referido e com o titular do Viscondado como não sendo outro que ADRIANO AUGUSTO D´OLIVEIRA.

Não creio necessário fazer qualquer correcção ou errata ao volume XV, antes referido. Mais do que ali se contem vale o que consta do documento oficial e entre Adriano Augusto Campos de Oliveira e Adriano Augusto d´Oliveira há a diferença de se tratarem de duas pessoas diferentes, não sendo a primeira a referida em nenhum documento oficial de S.M. o Rei D. Carlos I. Não foi ele, quem quer que tenha sido, que foi o Visconde de São Jorge. Com os meus cumprimentos,

Dr. Manuel B.T.Castro Girão

Pq. Miraflores Av. Tulipas 39-9º. Esq. 1495-161 Algés Tm. 922008576

P.S. tenho um interesse apenas académico, para confirmar os meus estudos sobre o assunto.






Fica, assim, como válido o que escrevi na 1ª. E 2ª. Edições do meu livro e que, apesar de tantos ataques, alguns em linguagem tão baixa e ordinária, nem Adriano Augusto Campos de Oliveira foi Visconde de São Jorge, nem o tal seu bisneto , pela via ilegítima, - que ainda não deu a cara [ a propósito e antes de acabar para dar um tom ridículo ao assunto foram escritas as mais dispares informações sobre o pretenso Visconde – que enviuvou no dia do casamento, mas depois já não era ele, mas sim um irmão; que não teve descendência, para depois aparecer um bastardo de nome “pomposo” Nil Adrien Colomb Portugal [nem mais]Portugal de Oliveira, etc, etc. E a propósito deste também há que acentuar que consultados os serviços das Conservatórias, por intermédio da Conservatória dos Registos Centrais, também, uma vez mais, aqui nada consta sobre aquele individuo, sua legitimação e seu pai Adriano Augusto Campos de Oliveira, pretenso Visconde de São Jorge. Não pode deixar também de se mencionar aqui e em relação ao filho ilegítimo do pretenso Visconde [legitimado, como pretendem alguns] que como é por demais sabido por quem competente, nunca aquele nome, no mínimo bizarro, seria aceite pelas autoridades competentes portuguesas, pois a lei não o permitiria, logo nunca figuraria em nenhum registo português ou nele seria incorporado, pelo que nunca existiria como nacional português. Em três competentes arquivos de departamentos estaduais próprios nada consta sobre Adriano Augusto Campos de Oliveira como Visconde de São Jorge.

Sem querer ser “profeta em causa própria” não posso deixar de acentuar que os meus opositores têm-se ocupado, numa obra tão vasta, com um pormenor, ainda que considerem, e é, muito importante, e não reconheçam que não é, no entanto no mínimo claro, isto é, e polémico ou controverso. Não será talvez para eles, o que não admira…

Mas nada se refere sobre a essência do trabalho. O que sai agora implicou a leitura e consulta de muitas mais obras, a estadia em lugares como Goa [2 vezes] Tivandrum, Kerala, onde tive oportunidade de contactar pessoalmente com o actual Rajha Marajha de Trevancore, e ainda Praga, Budapeste, Varsóvia e Cracóvia, Kiev [2 vezes], Vilnius e Revel onde, em todos estes lugares contactei com eminentes estudiosos dos assuntos aqui tratados, bem como ter tido uma oportunidade única de visitar, várias vezes, uma exposição magnífica sobre Bizâncio que só a Royal Academy de Londres tem capacidade para organizar. Tudo isto é a base do trabalho que sai agora, bem como a Biblioteca e arquivo do Ministério dos Negócios Estrangeiros. Sem falar nos estudos laboratoriais-cientificos feitos por Universidades americanas reputadas, desta vez muito mais alargados que chegaram a ser conjugados com grupos de estudo internacionais dos ramos Rurikid, de Kiev, Piast, da Polónia, etc.

É assim que se faz a história de uma família hoje portuguesa mas com raízes espalhadas pela Europa, Médio Oriente, predominantemente Castela, Leão, Aragão, Galiza, Saxónia, Suévia, Piemonte, etc, mas que, nos últimos séculos nunca chegou a ter, nem de longe, a projecção que os seus homónimos espanhóis adquiriram no Reino vizinho. De salientar, porém, que de todas as obras portuguesas consultadas , e foram muitas, sobre genealogia devo dar particular relevo á obra actual do Prof. Abranches de Soveral. Não o conheço pessoalmente embora tenha tido o privilégio de contactar, ainda que muito brevemente, com seu Pai por ocasião no Ministério dos Negócios Estrangeiros. Mas isto é secundário, se tivermos em conta o valor da obra do primeiro, ainda que muitas vezes reconheça, e bem, as enormes possibilidades de erro involuntário ou por força das fontes.